terça-feira, 24 de abril de 2018

D. Quixote no dia mundial do livro em 2018


Faz pouco menos de dois meses que conclui a leitura do primeiro volume de D. Quixote. Fiquei surpreso ao perceber que o personagem principal do mais famoso livro do mundo é tão incrivelmente antipático. O livro é, entretanto, muito mais impressionante do que eu poderia imaginar: não tinha ideia, por exemplo, das implicações cultura popular X cultura erudita e da atitude radicalmente renascentista, de reunir a cultura do passado para lançar ao futuro. As histórias contadas em modelo de boneca russa às vezes cansam por ir longe demais, às vezes, por serem longas demais. Ainda assim, não deixa de ser divertido.
Mas duas coisas impressionam: primeiro, fiquei imaginando que seria possível que nenhum dos regimes totalitários do século XX tivesse existido se as pessoas alfabetizadas do século XIX tivessem lido e debatido publicamente a obra mais famosa de Cervantes: contra tudo que não cabe no seu mundo idealizado, o Cavaleiro da Triste Figura reage com o firme propósito de aniquilação através da violência física: “se não cabe no meu mundo ideal, não há diálogo, só o extermínio total do outro é a reação possível.” Eu ainda queria entender como esse livro pode ser lido algum dia como um elogio ao idealismo. Eu o li exatamente como um grande tratado, a favor da fantasia sim, mas essencialmente contra o idealismo.
A segunda é a alegoria estabelecida através da história de Zoraida, sobre a situação da mulher no mundo islâmico. Filha de homem rico e importante, Zoraida é criada pela escrava cristã, que, como vingança da sua condição, converte a criança ao catolicismo, com foco na figura de Maria; o importante é que a argumentação é toda a partir do pressuposto de que a vida da mulher no mundo cristão é obviamente melhor que no mundo islâmico, já que Maria, na condicao da mae do filho de deus, ocupa um lugar de destaque ao lado de Jesus. Zoraida é a mulher que se liberta da submissão ao conseguir chegar à Espanha e se converter ao cristianismo. É uma alegoria que Cervantes provavelmente jamais poderia imaginar que viesse a ter alguma importância para a vida das pessoas quatrocentos anos depois.

terça-feira, 17 de maio de 2016

No dia mundial contra a homofobia em 2016


Hoje é o dia mundial de luta contra a homofobia. 
O movimento pelos direitos de gays, lésbicas e transexuais agora denominados de transgeneros, e que pode ser unificado na palavra queer, é um daqueles movimentos civis que junto ao feminismo e ao movimento ecológico deixou claro no período entre 1960 e 1989 que a divisao na política entre direita e esquerda era incapaz de vetorizar as disputas no campo das articulacoes políticas vivas e múltiplas. A partir de 1989, esta é uma constatação histórica. 
Por isso é assustador o achatamento que muito destes temas tiveram no Brasil ao serem associados ao campo da esquerda. Entre cooptacao, ilhamento e ignorância, passou a se admitir gente no cenário político que admira ditaduras assassinas de gays e diz articular causas gays. 
Esclarecimento e cultura é o que sempre falta, afinal não é por um ou outro político local se colocar nesta posição que a luta política queer no mundo será achatada desta maneira. Mas que dentro do país isso só serve ao desgaste e enfraquecimento da causa, isso é fato.
Libertemo-nos.
E nao se esqueçam nem se deixem confundir:
em política, o discurso da hegemonia é o mesmo da normalidade!
‪#‎diamundialcontraahomofobia‬

sábado, 26 de dezembro de 2015

o melhor de um ano onde quase tudo foi pior, ê 2015 difícil

No XI Panorama Internacional Coisa de Cinema
2015, o ano que termina projetando uma horrorosa sombra sobre o próximo; o ano da lama; mas houve o que de bom para lembrar.
exposição: Lelé em Colônia, Alemanha, no início do ano, e Josef Frank, agora no final do ano, no MAK.
hashtag: #youshouldbettereatarchitecture
melhor disco: The Magic Whip, Blur.
melhor filme: Boi neon, de Gabriel Mascaro.
melhor canção: muito difícil escolher que canção entre as de The Magic Whip seria a melhor, talvez Pyongyang.
leitura: retomei e li por completo, no original em inglês, On Liberty, de John Stuart Mill.
arquitetura: o Kolumba Museum em Colônia, Alemanha, a abadia de Pomposa, mausoléu de Teodorico, o MAXXI, a catedral de Spoleto.
evento: sem dúvida, o XI Panorama Internacional Coisa de Cinema.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Quintal e Em Paz, dois curtas no Panorama Internacional Coisa de Cinema (antes tarde do que nunca!)

Não assisti a muitos curtas no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema, mas entre os que tive a chance de ver dois merecem um comentário, ainda que tanto tempo depois. O primeiro deles é Quintal, de André Novais Oliveira, acertadamente premiado no Panorama. Quintal é provavelmente a mais inteligente, divertida, trash, aguda, inquietante e desconcertante produção artística de 2015 no país. Este exagero meu é reflexo da grande sensação de um vento forte e refrescante, varrendo tudo, que o filme deixou: urbano, nonsense e com um título acadêmico, como as coisas ao nosso redor.
O outro filme de que gostei muito foi Em Paz, de Clara Linhart. Em Paz trata de espaço e memória urbana: a diretora, em um filme muito bem editado e que se utiliza da inserção musical como um excelente mecanismo de estruturação da narrativa fílmica, demonstra, de uma maneira mais que didática, tanto os elementos que compõe a memória urbana como toca em questões essencialmente espaciais, em seu documentário sobre o cemitério das prostitutas judias no Rio de Janeiro.
A partir de um muro e um portão, Clara Linhart apresenta ao espectador a memória guardada pela vizinhança, a memória recuperada pelos estudiosos, a memória reorganizada pela construção identitária e a memória registrada na cultura popular, para ir desvendando aos poucos tudo que aquele espaço, mais que representa, define, mantém, estrutura, abriga e articula, desafiando a dinâmica urbana e demonstrando o quanto ele - qualquer espaço! - precisa ser entendido menos como um livro aberto e mais como uma pedra de roseta ou um palimpsesto irreproduzível. E percebendo esta impossibilidade de reprodução, associada ao caráter sacro que o cemitério judaico guarda para o espaço - exatamente aquele único ali, que não pode ser tocado - o documentário revela muito precisamente como o espaço é tão comumente neglicenciado e como dele não se pode escapar. Imperdível para arquitetos, Em Paz é primoroso em tornar acessível ao público em geral questões tão importantes como esquecidas.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Travessia, no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema


Travessia, o filme da sessão de encerramento do XI Panorama Internacional Coisa de Cinema, conta a história de desencontro entre pai e filho, personagens interpretados pelos atores Chico Diaz e Caio Castro. Estamos em Salvador, sabemos que a mãe/esposa está morta e que no meio das diferenças entre os dois personagens há uma disputa que envolve o inventário de família.
Com uso um tanto excessivo da combinação de tomadas com baixa profundidade de campo e close-ups, o filme aposta na construção psicológica dos personagens, que entretanto não adquire o relevo suficiente para que compreendamos as razões para tamanho desencontro familiar ou venha a estabelecer elos significativos com os acontecimentos da trama.
A inserção da trilha sonora, um tanto cansativa, e o ritmo narrativo, que poderia ser mais vigoroso, tampouco contribuem para o filme deslanchar ou envolver o público. Com algumas tomadas de Salvador muito bonitas, o filme não encontra firmeza nas opções estéticas e acaba sendo encerrado com um formalismo previsível.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Boi Neon, no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema


A expectativa gerada a partir da conquista pelo filme Boi Neon do prêmio da mostra Horizontes no Festival de Veneza, na Itália, é plenamente satisfeita: o filme dirigido por Gabriel Mascaro deve ser não somente o melhor filme lançado este ano no Brasil, senão também um dos melhores dos últimos anos.
O filme mantém-se em alto nível em todos os seus elementos: a impecável atuação do conjunto de atores, o excelente roteiro, a fotografia que acompanha a narrativa sem tentar assumir qualquer protagonismo, a trilha sonora, a direção de arte e, acima de tudo, a cuidadosa construção do desenrolar da trama e o seu encerramento.
Boi Neon explora muito bem as tensões entre os personagens decorrentes da própria ambivalência de sua atividade de trabalho: entre a manutenção do gado e a vida na estrada como artistas circenses, a história vive de uma série de articulações, umas possíveis, outras imaginárias, outras concretas, que a moldura oferecida pela confluência entre o ambiente rural e o mundo do espetáculo oferece: é daí, desta ambiguidade, que surge a riqueza não somente do personagem central, interpretado por Juliano Cazarré, o vaqueiro que gosta de corte e costura, como de todo o conjunto formado pelas figuras coadjuvantes.
Em comum com Big Jato, o outro filme exibido nesta edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema cuja história se desenrola no nordeste brasileiro fora das metrópoles, o filme apresenta o cotidiano de empreendedores autônomos, à margem do processo mais recente de industrialização e modernização, que aparece em distintas intensidades como um pano de fundo de contraposição das histórias. Mas apenas isso os dois filmes têm em comum. No filme dirigido por Gabriel Mascaro a economia dos meios e a precisão da inflexão dramática no meio da trama são tão bem calibradas que o diretor constrói sutilmente a crescente ansiedade do público em direção ao desfecho do Boi Neon.
E se há algo contracultural neste filme em relação aos temas amplamente debatidos no país hoje, o Boi Neon pode também ser visto como uma espécie de manifesto anti-queer. E aí, é um filme deliciosamente irônico, algo mais uma vez apenas possível por saber explorar magistral e sutilmente as ambivalências e ambiguidades. Imperdível.