terça-feira, 17 de maio de 2016

No dia mundial contra a homofobia em 2016


Hoje é o dia mundial de luta contra a homofobia. 
O movimento pelos direitos de gays, lésbicas e transexuais agora denominados de transgeneros, e que pode ser unificado na palavra queer, é um daqueles movimentos civis que junto ao feminismo e ao movimento ecológico deixou claro no período entre 1960 e 1989 que a divisao na política entre direita e esquerda era incapaz de vetorizar as disputas no campo das articulacoes políticas vivas e múltiplas. A partir de 1989, esta é uma constatação histórica. 
Por isso é assustador o achatamento que muito destes temas tiveram no Brasil ao serem associados ao campo da esquerda. Entre cooptacao, ilhamento e ignorância, passou a se admitir gente no cenário político que admira ditaduras assassinas de gays e diz articular causas gays. 
Esclarecimento e cultura é o que sempre falta, afinal não é por um ou outro político local se colocar nesta posição que a luta política queer no mundo será achatada desta maneira. Mas que dentro do país isso só serve ao desgaste e enfraquecimento da causa, isso é fato.
Libertemo-nos.
E nao se esqueçam nem se deixem confundir:
em política, o discurso da hegemonia é o mesmo da normalidade!
‪#‎diamundialcontraahomofobia‬

sábado, 26 de dezembro de 2015

o melhor de um ano onde quase tudo foi pior, ê 2015 difícil

No XI Panorama Internacional Coisa de Cinema
2015, o ano que termina projetando uma horrorosa sombra sobre o próximo; o ano da lama; mas houve o que de bom para lembrar.
exposição: Lelé em Colônia, Alemanha, no início do ano, e Josef Frank, agora no final do ano, no MAK.
hashtag: #youshouldbettereatarchitecture
melhor disco: The Magic Whip, Blur.
melhor filme: Boi neon, de Gabriel Mascaro.
melhor canção: muito difícil escolher que canção entre as de The Magic Whip seria a melhor, talvez Pyongyang.
leitura: retomei e li por completo, no original em inglês, On Liberty, de John Stuart Mill.
arquitetura: o Kolumba Museum em Colônia, Alemanha, a abadia de Pomposa, mausoléu de Teodorico, o MAXXI, a catedral de Spoleto.
evento: sem dúvida, o XI Panorama Internacional Coisa de Cinema.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Quintal e Em Paz, dois curtas no Panorama Internacional Coisa de Cinema (antes tarde do que nunca!)

Não assisti a muitos curtas no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema, mas entre os que tive a chance de ver dois merecem um comentário, ainda que tanto tempo depois. O primeiro deles é Quintal, de André Novais Oliveira, acertadamente premiado no Panorama. Quintal é provavelmente a mais inteligente, divertida, trash, aguda, inquietante e desconcertante produção artística de 2015 no país. Este exagero meu é reflexo da grande sensação de um vento forte e refrescante, varrendo tudo, que o filme deixou: urbano, nonsense e com um título acadêmico, como as coisas ao nosso redor.
O outro filme de que gostei muito foi Em Paz, de Clara Linhart. Em Paz trata de espaço e memória urbana: a diretora, em um filme muito bem editado e que se utiliza da inserção musical como um excelente mecanismo de estruturação da narrativa fílmica, demonstra, de uma maneira mais que didática, tanto os elementos que compõe a memória urbana como toca em questões essencialmente espaciais, em seu documentário sobre o cemitério das prostitutas judias no Rio de Janeiro.
A partir de um muro e um portão, Clara Linhart apresenta ao espectador a memória guardada pela vizinhança, a memória recuperada pelos estudiosos, a memória reorganizada pela construção identitária e a memória registrada na cultura popular, para ir desvendando aos poucos tudo que aquele espaço, mais que representa, define, mantém, estrutura, abriga e articula, desafiando a dinâmica urbana e demonstrando o quanto ele - qualquer espaço! - precisa ser entendido menos como um livro aberto e mais como uma pedra de roseta ou um palimpsesto irreproduzível. E percebendo esta impossibilidade de reprodução, associada ao caráter sacro que o cemitério judaico guarda para o espaço - exatamente aquele único ali, que não pode ser tocado - o documentário revela muito precisamente como o espaço é tão comumente neglicenciado e como dele não se pode escapar. Imperdível para arquitetos, Em Paz é primoroso em tornar acessível ao público em geral questões tão importantes como esquecidas.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Travessia, no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema


Travessia, o filme da sessão de encerramento do XI Panorama Internacional Coisa de Cinema, conta a história de desencontro entre pai e filho, personagens interpretados pelos atores Chico Diaz e Caio Castro. Estamos em Salvador, sabemos que a mãe/esposa está morta e que no meio das diferenças entre os dois personagens há uma disputa que envolve o inventário de família.
Com uso um tanto excessivo da combinação de tomadas com baixa profundidade de campo e close-ups, o filme aposta na construção psicológica dos personagens, que entretanto não adquire o relevo suficiente para que compreendamos as razões para tamanho desencontro familiar ou venha a estabelecer elos significativos com os acontecimentos da trama.
A inserção da trilha sonora, um tanto cansativa, e o ritmo narrativo, que poderia ser mais vigoroso, tampouco contribuem para o filme deslanchar ou envolver o público. Com algumas tomadas de Salvador muito bonitas, o filme não encontra firmeza nas opções estéticas e acaba sendo encerrado com um formalismo previsível.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Boi Neon, no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema


A expectativa gerada a partir da conquista pelo filme Boi Neon do prêmio da mostra Horizontes no Festival de Veneza, na Itália, é plenamente satisfeita: o filme dirigido por Gabriel Mascaro deve ser não somente o melhor filme lançado este ano no Brasil, senão também um dos melhores dos últimos anos.
O filme mantém-se em alto nível em todos os seus elementos: a impecável atuação do conjunto de atores, o excelente roteiro, a fotografia que acompanha a narrativa sem tentar assumir qualquer protagonismo, a trilha sonora, a direção de arte e, acima de tudo, a cuidadosa construção do desenrolar da trama e o seu encerramento.
Boi Neon explora muito bem as tensões entre os personagens decorrentes da própria ambivalência de sua atividade de trabalho: entre a manutenção do gado e a vida na estrada como artistas circenses, a história vive de uma série de articulações, umas possíveis, outras imaginárias, outras concretas, que a moldura oferecida pela confluência entre o ambiente rural e o mundo do espetáculo oferece: é daí, desta ambiguidade, que surge a riqueza não somente do personagem central, interpretado por Juliano Cazarré, o vaqueiro que gosta de corte e costura, como de todo o conjunto formado pelas figuras coadjuvantes.
Em comum com Big Jato, o outro filme exibido nesta edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema cuja história se desenrola no nordeste brasileiro fora das metrópoles, o filme apresenta o cotidiano de empreendedores autônomos, à margem do processo mais recente de industrialização e modernização, que aparece em distintas intensidades como um pano de fundo de contraposição das histórias. Mas apenas isso os dois filmes têm em comum. No filme dirigido por Gabriel Mascaro a economia dos meios e a precisão da inflexão dramática no meio da trama são tão bem calibradas que o diretor constrói sutilmente a crescente ansiedade do público em direção ao desfecho do Boi Neon.
E se há algo contracultural neste filme em relação aos temas amplamente debatidos no país hoje, o Boi Neon pode também ser visto como uma espécie de manifesto anti-queer. E aí, é um filme deliciosamente irônico, algo mais uma vez apenas possível por saber explorar magistral e sutilmente as ambivalências e ambiguidades. Imperdível.

Garoto, no XI Panorama Internacional de Cinema


Ontem minha programação no Panorama foi contracultural (no sentido mais aberto da expressão, distante do seus significado ligado mais precisamente aos anos 60): tanto Garoto como Boi Neon são filmes que desafiam valores, opiniões e agitações muito em voga no país atualmente. E por isso já possuem um valor à parte.
Garoto, o filme dirigido por Júlio Bressane, segue a tradição do diretor, de obras muito pessoais. Fotografia com ênfase em diagonais planas e perspectivas do eixo vertical dramatizadas marcam a primeira parte do filme, enquanto a segunda, em contraste visual e de ambiência (do bosque à caatinga), é marcada por perspectivas aéreas de paisagens.
A distinção entre os dois momentos no filme - a que corresponde à mudança de protagonismo entre os dois personagens, já que a garota cede ao garoto esta posição depois desta transição - é clara e precisa, afinal o filme é uma versão cinematográfica da antiga história de Eva e Adão. O tempo é longo, assim como é de épocas imemoriais o bolero.
O que tem de contracultura no filme? À passagem da dupla de Eva e Adão para Adão e Eva corresponde uma visão igualmente feminista e anti-feminista desta versão ficcional da origem da espécie humana no planeta. No país onde a palavra deconstrução é tão incompreendida como abusada, a elaborada extensão no tempo desta ficção, acompanhada de um excelente desenho de sons, poderia até ser didática (sem excessos de formalismos). Mas desconfio que poucos assistirão a este Garoto.