domingo, 23 de dezembro de 2007

La Selvática

Eu tinha 14 ou 15 anos quando li Cem Anos de Solidão. Havia pouco tempo que García Márquez tinha ganho o Prêmio Nobel de Literatura e todos éramos de esquerda. Em meados dos anos 80 quase todos eram de esquerda, especialmente se você era adolescente e estava no Colégio Militar. Ser de esquerda representava também, ou principalmente, estar em desacordo com o colégio de uma maneira inteligente, a outra maneira mais comum levava quase sempre a fins de semanas perdidos em detenção, algo que nunca me aconteceu. Aliás, em Salvador dos anos 80 quem não tinha uma prancha de surf, já era mais ou menos de esquerda. Mais ainda se você lia livros. E se eram livros de García Márquez, quase tão na moda como o surf, então era já quase futuro eleitor dos partidos orgulhosos dos candidatos que tinham sido presos políticos alguns anos antes, todos em fotos na TV, por ocasião do horário livre eleitoral gratuito, que tentavam lembrar nos rostos dos fotografados que ainda havia algum indício desta prisão. Mais tarde, todo mundo da minha geração que queria virar rico, quis ser publicitário.

Mas se você lia García Márquez na época e se achava de esquerda, você seria um traidor se lesse Vargas Llosa. Mesmo estando num Colégio Militar e tendo a possiblidade de se sentir dentro de uma história como La ciudad y los perros, Vargas Llosa era um tabu. Ser visto com um livro dele na mão pegava mal. Passaram-se muitos anos para que eu viesse a me emocionar com as histórias dos meninos do Colégio Militar de Lima, ainda que obviamente estas lembrassem mais as das gerações anteriores à minha no CMS. Depois de La ciudad y los perros li Tia Julia y el escribidor, um dos livros mais divertidos que deve existir. Vargas Llosa sabe contar histórias e sua narrativa ao mesmo tempo que cinematográfica não deixa de ter uma pretensão de chegar àquilo para o que se considera estarem os clássicos russos e franceses do século XIX, dos quais não li quase nada. Mas poucos devem ter direito a esta pretensão como ele, caso ele realmente a tenha. La casa verde é um dos livros mais enigmáticos, bem escritos e vivos que já li. Deve haver poucas personagens como La Selvática, intrigante em sua humanidade híbrida, em sua dificuldade de calçar sapatos. Há duas semanas terminei de ler La guerra del fin del mundo, sem ter lido Os Sertões, é claro. Mais de oitocentas páginas de pura tensão, construídas em cortes agudos e precisos na narrativa, à maneira própria do autor, indo e vindo no tempo e trocando constantemente de foco narrativo, como um grande filme.

Ironicamente, hoje ditadores populistas de esquerda estabelecem fusos horários próprios, semelhante aos atos de governo do Patriarca Outonal de García Márquez – sim, outra leitura dos anos 80. Mas houve um livro que não li e, se me recordo bem, achei na época, ou era só uma intuição, que aquilo era demais. É, eu não li As veias abertas da América Latina, título que conferia seriedade, ou quase um ar pré-universitário, aos iniciados através de García Márquez. É que havia uma outra maneira de ser não-conforme com o Colégio: uns colegas montaram uma banda – Os lambedores de cérebro – que tocava covers do Camisa de Vênus, ensaiavam no salão nobre, com poltronas de couro equipadas com cinzeiros tipo de avião na parte de trás do encosto, e onde só podíamos entrar poucas vezes por ano. Estive nos ensaios, nos divertíamos muito. E guardei a chance de mais tarde ler Vargas Llosa.

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