quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Dois motivos pelos quais sou contra leis raciais, ou Feliz Natal para todos


Por ocasião da aprovação na Câmara dos Deputados há poucas semanas da primeira lei brasileira desde 1888 que faz diferença entre cidadãos brasileiros em virtude de sua cor de pele.

1. Pessoal

Eu tinha cinco anos e minha irmã três quando nos tornamos órfãos de pai. Casada havia seis anos, a vida de minha mãe se tornou um pesadelo. Pudemos continuar morando no apartamento confortável de Conjunto Habitacional onde já morávamos, e nós passamos a receber uma pensão alimentícia do Estado correspondente em teoria àquilo que meu pai havia contribuído para a sua aposentadoria. É claro que alguns anos mais tarde, a inflação havia reduzido esta pensão a um valor simbólico. Por mais que minha mãe trabalhasse, e não foi pouco o esforço dela, nós só conseguimos sobreviver com alguma decência à hiperinflação dos anos 80, porque meu pai havia comprado um terreno no Jardim Brasília, em Pernambués, e da venda deste terreno escapamos de, por exemplo, ter perdidas as chances de um futuro profissional com um horizonte mais amplo, pois sem isto, teríamos terminado numa escola pública.

Mas o Estado não queria que eu cursasse a universidade: no ano em que fui admitido em primeiro lugar no vestibular de toda a UFBA eu fazia também 18 anos. Com 18 anos eu perdia automaticamente a pensão alimentícia a que eu tinha direito. Ali o Estado enviava-me uma clara mensagem: você, que é órfão, não receberá nenhum apoio de minha parte em continuar a estudar; a partir de agora, se você quiser se alimentar, vá trabalhar. Como a universidade tampouco concedia qualquer prêmio ou apoio a quem teve as melhores notas entre todos que prestaram o vestibular naquela ano, era claro que se eu quisesse estudar eu teria que me virar.

Graças à minha capacidade intelectual, eu pude além de estudar, dar aulas de matemática e física à noite para estudantes de segundo grau, além, é claro, do estágio de arquitetura à tarde. Estudar mesmo para o curso só pude nos fins de semana. Concluí em seis anos e meio um curso que poderia ter feito em cinco, mas não me queixo. Agradeço à mãe de João, um menino que morava na Vitória, e que foi a primeira pessoa que me confiou a tarefa de ensinar física e matemática ao seu filho. E que me indicou a outras pessoas.

Creio que, à exceção das camadas sociais muito, muito ricas, órfãos tiveram, tem e terão uma dificuldade material muito maior do que qualquer outro que tenha pai e mãe vivos o apoiando em sua formação, seja ele afro-, índio-, europeu-descendente ou mesmo simplesmente brasileiro, seja ele pobre, classe média ou média-alta. Caso alguém tenha interesse realmente em dar apoio a alguém, dê uma olhada no que pode fazer por órfãos, e também pelos filhos de mãe solteira, estas crianças estão efetivamente em desvantagem, uma que caberia ao Estado realmente reparar.


2. Político


"Reconhecemos hoje na Espanha o direito de as pessoas contraírem matrimônio com outras do mesmo sexo. Antes de nós, fizeram-no Bélgica e Holanda, e anteontem o reconheceu o Canadá. Não fomos os primeiros, mas estou seguro que não seremos os últimos. Atrás virão outros muitos países, impulsionados, Senhoras e Senhores, por duas forças que não podem ser contidas, a liberdade e a igualdade."
José Luiz Zapatero, primeiro-ministro espanhol, por ocasião da aprovação da lei no Parlamento daquele país que passou a reconhecer a união civil entre pessoas do mesmo sexo.

O Estado Espanhol, diferente dos demais cordialmente citados por Zapatero, foi efetivamente o primeiro a acabar com diferenças de chances estabelecidas por lei entre seus cidadãos no que diz respeito à matéria em questão. Naquele momento Holanda e Bélgica ainda conservavam restrições a casais do mesmo sexo quanto à adoção de crianças. Em vez de criar instituições jurídicas e uma série infinita de adaptações a milhares de leis, a Espanha mudou uma única frase, redefinindo o casamento como um acordo que, em vez de ser firmado entre homem e mulher, passava a ser entre duas pessoas.

Os princípios de liberdade e igualdade são a base e a medida de leis verdadeiramente sociais. O Estado não deveria por lei estabelecer qualquer desigualdade entre os seus cidadãos. O que pode ser vendido como positivo, se estabelecido a partir de uma desigualdade, será sempre negativo para alguém, como é o caso das cotas raciais. O Estado deveria estar preocupado em cumprir seu dever constitucional de oferecer ensino de qualidade a todos, da creche, passando pela jardim de infância, escolas primárias e secundárias até a universidade. Caso os riquíssimos queiram se separar da grande massa, que a eles seja dada a liberdade de pagar muito, muito caro pelas escolas onde eles cultivem seu desejado isolamento social. Todo o resto da população, creio que uns 90 por cento, apoiaria poder contar com um ensino público de qualidade, em escolas localizadas na vizinhança.

Há que confiar na esperança contida no discurso de Zapatero, que as forças da liberdade e igualdade não podem ser contidas. Especialmente em épocas tão maquiavelicamente contrárias a estas forças.



PS: Esta e a minha avó materna, no seu aniversário de 94 anos na semana passada, para quem por acaso pense que eu não teria direito, caso hoje tivesse 18 anos, às cotas raciais e estaria apenas sendo um racista me queixando. Na verdade, não teria mesmo direito, porque sei que minha mãe teria feito o mesmo esforço para que nós não tivéssemos que estudar em uma escola pública de péssima qualidade, como ela ainda é hoje, principalmente em Salvador.

minha avó, 94 anos




cães

O papa me deixou com tanta raiva que pulei o comentário sobre o lançamento do filme de Moca e Kibe, segunda à noite, dia 22, no novo cinema da cidade, na Praca Castro Alves. Antes do filme, é preciso dizer que é uma grande emocao ver o Guarani-Glauber Rocha reaberto, com um desenho novo muito bom. Um único senao existe no uso do terraco sobre a ladeira da Barroquinha como estacionamento.
A sala lotou, a festa foi muito bonita (a cachaça com picolé nos copos vermelhos foi muito legal), e os aplausos em três ondas nao deixaram dúvida do impacto do filme: nao foi um aplauso fácil, foi um daqueles em que o público revela que ainda está refletindo sobre o que viu, o que é fantástico.
É difícil escrever sobre um filme que se conhece desde o início e de que se tem orgulho de ter de alguma maneira colaborado (ver o nome nos créditos no final é o máximo!). Só posso dizer que a traduçao cinematográfica que os diretores construíram está à altura do desafio assumido frente a uma literatura de tamanho quilate.
Muito bom.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

ÓDIO AO PAPA!

O papa defendeu ontem a idéia de que a homossexualidade levaria o ser humano à auto-destruição. Comparou a idéia de salvar as pessoas do comportamento homossexual à salvação das florestas tropicais.
Isso é para mim espalhar o ódio. Animar as pessoas a tentar "salvar homossexuais" é praticar a intolerância. Seguindo a doutrina básica das grandes religiões - à exce
ção do budismo - o papa retrocede, como sempre, ao cultivar a desconfiança, o medo, o ódio, a vontade de eliminar o outro por ser diferente. Mas quem semeia o ódio não colhe outra coisa, apenas ódio.
Existem duas coisas que me impressionam na Fran
ça: uma é a inscrição "Liberdade Igualdade Fraternidade" nas fachadas dos edifícios públicos. A outra é o conjunto de estátuas de santos e nobres decapitadas ou completamente destruídas em igrejas por todo o país. Pode ser que eu olhe demais para coisas antigas, mas em poucas ocasiões é possível ter a sensação tão evidentemente positiva frente a um testemunho histórico.
É cada vez mais premente a necessidade de um novo Stonewall, ainda que, infelizmente, a sua realiza
ção pareça cada vez menos provável.

domingo, 21 de dezembro de 2008

mais do mesmo

Hoje uma foto do meu álbum no flickr chegou ao número de 200 visualizacoes. Trata-se da foto que fiz em frente à famosa casa de Le Corbusier na Weissenhofsiedlung em Stuttgart, quando por diversao tentei procurar no local o ângulo da famosa foto com o automóvel e a mulher à soleira.
Pelo visto nao somente turistas viajam pelo mundo apenas para confirmar e rever tudo o que já sabiam e haviam visto nos prospectos das agências de viagem. Quem surfa pela internet também só quer ver mais do mesmo.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Música do ano 2008

Minha banda de 2008 é The Daredevil Christopher Wright. É o que de melhor ouvi este ano, a cancao My attempts to grow a beard é o número 01 no playlist do meu mp3. Para além de toda a beleza de melodia e canto, da complexidade estrutural (com sua mudanca inesperada e retorno acertado), bastaria seu título para ser um hit. Ao menos para mim.

ontem fui ao cinema

Assisti a Feliz Natal, primeiro filme de Selton Mello como diretor. Espero que o segundo, caso ele venha a fazer um segundo, seja melhor.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

uma estupidez

havia lido ontem no jornal e hoje pude comprovar no próprio bolso: durante o mês de dezembro, pelo terceiro ano consecutivo, os táxis de Salvador podem rodar com bandeira 2 durante as 24 horas do dia, sob o pretexto de ser uma maneira de eles receberem o 13° salário garantido a empregados de uma maneira geral.
Sugiro que todos os outros profissionais liberais da cidade fa
çam o mesmo: que arquitetos, médicos, dentistas, baianas de acarajé, vendedores de canetas a 1 real no ônibus, engenheiros, fisioterapeutas, manicures que atendem em casa, prostitutas, advogados, músicos, enfim, toda e qualquer pessoa que trabalhe por conta própria, que aumentem em 30% a tarifa cobrada pelo seu serviço no mês de dezembro, o equivalente da diferença entre a bandeira 1 e a 2 na cidade.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Dia Mundial de Luta Contra a AIDS

USE CAMISINHA!

um país sem cantores

Quem ouve um pouquinho de música contemporânea em inglês hoje em dia é forçado a se perguntar porque no Brasil não há cantores. Basta escutar gente como Andrew Bird, bandas como Two Gallants, Fleet Foxes, The Daredevil Christopher Wright ou The Dodos para perceber cantores de alta qualidade.
Faz tempo essa falta, não sei as suas razões.
PS: Seu Jorge talvez seja a exceção que confirme a regra.

música boa

O tanto que a música do paralamas do sucesso nunca conseguiu me agradar, hoje me diverte a música do Vampire Weekend.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

crime ecológico

Hoje participei voluntariamente pela primeira vez de um crime ecológico. Fiz minha inscrição para uma vaga de professor de uma universidade federal, para a qual tive que apresentar 4 fotocópias de todo e qualquer documento que comprove o meu currículo. Nao compreendo que razão há para tal exigência. Penso nas centenas de pessoas multiplicadas por 4 fotocópias e vejo muita energia e árvores indo embora. Antes de o Brasil, que apresenta orgulhosamente indicadores elevadíssimos de reciclagem de metal - alcançados apenas graças à miséria de uma parte da população - vir a ter alguma consciência ecológica coletiva, a calota polar derretida terá inundado suas cidades.

domingo, 16 de novembro de 2008

de um show de música

Na semana passada passei por uma experiência inédita, assistir a um show de música sem conhecer qualquer canção apresentada, nenhuma linha do texto, nenhuma seqüência melódica. Era o show de Lenine no TCA. No geral não gostei do que ouvi, é uma musicalidade que em nada me agrada.

Mas desconhecendo tudo, você está livre para perceber várias coisas: em primeiro lugar, a constatação de que a amplificação do som, caso retirássemos o forro e o telhado do teatro, permitiria a qualquer pessoa do outro lado da praça escutar, dançar e cantar sem qualquer problema, e creio que os moradores do Campo Grande teriam alguma dificuldade em atender telefonemas ou assitir a TV. Pelo menos nas 4 primeiras canções era como se eu estivesse ao lado do mais potente trio elétrico. Eu creio que a melhor palavra para isso é grosseria, uma recorrente no som amplificado para qualquer show de música popular dentro do teatro.

Com o volume altíssimo, era difícil entender qualquer coisa dita pelo cantor. Mas depois que o som foi de alguma maneira trazido para níveis mais suportáveis, eu continuava sem entender, e olha que eu tentei entender o texto, pois a música iria chegar ao final sem me emocionar. No meio do show, fiquei com a sensação de que Lenine deve ser um bom compositor, para ter um público tão ligado e eu não perceber nenhuma variação na voz. No final do show, fiquei com uma certa impressão de monotonia geral no ar.

Do pouco que pude entender dos textos, principalmente depois das repetições dos refrões, reafirmei uma leve suspeita que tenho – longe de ser uma teoria – de que O Quereres de Caetano Veloso tornou-se a canção mais influente para aquilo que se entende como continuidade da MPB nos últimos 15 anos. Creio que lá em meados dos anos 80 ninguém poderia imaginar isso. Mas desde que eu tomei conhecimento de Chico César tenho esta impressão. O problema é que desta "possível origem" não saiu nada consistente.

Toda vez que penso nisso, tenho que lembrar um comentário dos Smithsons sobre o modernismo esvaziado, tornado clichê através de um processo "up tp bottom" dos hotéis da Flórida dos anos 50 e 60 inspirados na arquitetura brasileira dos anos 40 e 50, esta por sua vez fortemente influenciada pelo conjunto da obra de Le Corbusier. Eu sei que há controvérsias sobre o assunto, mas esta não deixa de ser uma linha de entendimento argumentável. Daí que na música popular, Le Corbusier seria substituído pelos poetas barrocos e pelos concretistas, Caetano assume a função da arquitetura brasileira "heróica" e trabalhos como o de Lenine ou Chico César seriam os hotéis da Flórida ou Las Vegas na virada dos anos 60. Desdobramentos do paralelo deixo ao leitor, mas creio que há pelo menos mais ironia nos hotéis norte-americanos.

A iluminação cênica, que foi sensivelmente melhorada na apresentação do dia seguinte, foi desenhada de uma maneira tal que passei boa parte do show sem poder olhar para o palco, evitando o ofuscamento constante.

O que melhor pude observar foi um descompasso enorme entre o espaço e o show: durante todo o tempo, muitas pessoas se balançavam nas cadeiras, gesticulavam, enfim, queriam dançar – afinal a música apresentada era para isso – e não podiam. O público deve ter saído meio frustrado, ou então não tem muita consciência de corpo, no que começo a acreditar. O artista deveria sentir o mesmo (dois dias antes, no mesmo TCA, e em uma situação mais extrema, Bel do Chiclete havia pedido a platéia para, pelo menos, bater palmas, que ele não estava acostumado ao silêncio; a partir daí o desconforto diminuiu e os chicleteiros foram para casa contentes).

Tenho a sensação, na condição de fã incondicional de Sylvia Telles, que no Brasil dos últimos vinte anos (sim, depois do rock dos anos 80, o ano é mesmo 1988) apenas 2 novos nomes são decisivos: Cássia Eller e Los Hermanos. Carlinhos Brown é provavelmente o único a ser acrescentado a esta lista. Quem esteve lá no teatro para assistir a entrevista do Chiclete com Banana há de concordar.

sábado, 15 de novembro de 2008

um s nunca pronunciado?

Hoje, no Canela, ao pedir uma dúzia de bananas ao vendedor na barraquinha metálica que ocupa o passeio, percebi que o s me soava estranho, novo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

em salvador

Amanhã faz uma semana que estou em Salvador, ainda não fui ver o Porto da Barra, acho que tou evitando chegar e já de cara ficar com muita raiva, e olha que levei 3 horas em um engarrafamento para ir do aeroporto a casa.
Mas já vi a Centenário, com seus postes horrorosos (meu Deus, quem desenha tal coisa?), seu rio sepultado em forma de esgoto, e seu mobiliário anti-urbano: as razoes pelas quais se toma a única avenida n
ão feia da cidade para transformá-la num arremedo de sítio pobrezinho esperando os festejos juninos ficarão como uma grande incógnita.
Eu já vejo uma possível defesa do que foi feito em sua presumível destinacao de área de lazer para os pobres da vizinhanca; intuitivamente imagino estatísticas crescentes de atropelamentos e horas de engarrafamento.
Haverá um dia algum resquício de urbanidade nesta cidade?


domingo, 26 de outubro de 2008

Gehen de Bernhard

Terminei de ler Gehen, de Thomas Bernhard. Fazia tempo que não lia algo tão divertido. Bernhard é normalmente associado a qualquer coisa de séria e rancorosa em relação à Áustria – inclusive a proibição testamental de encenação de suas peças no seu país – ou de triste e desesperado, abrangendo neste caso os seus livros autobiográficos.

Lendo Gehen (Ir, Ir-se embora, Caminhar) fiquei com a impressão de que Bernhard é tomado por demais em sério. O narrador da história nos conta o que lhe foi contado durante um passeio entre os distritos 20 e 9 de Viena por uma pessoa que a ele descreve as condições e o momento em que a figura central – o tempo todo ausente, porque já internada – enlouqueceu completamente.

Como se não bastassem as muitas gargalhadas que o livro proporciona, Gehen é interessantíssimo como exercício de composição: em poucos exemplos conheço tanta equivalência de estrutura e forma entre diferentes formas de arte como entre este texto e uma composição minimalista radical. Como uma peça de Glass da época – por exemplo, Music in similar motionGehen é um contínuo espiral de temas cuja repetição é a base mesma para a sua evolução. Gehen vive da repetição como fundamento para a exploração dos limites sintáticos.

A tirar pela literatura, ou pelo menos por livros como Gehen e Michael, este de Jelinek, o início dos anos 70 na Áustria deve ter sido uma época muito louca e muito engraçada.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Niemeyer Mae Menininha Phillip Glass Madonna

Fiquei com um misto de emoção e alegria ao ler no fim de semana que Oscar Niemeyer apóia a candidatura de Gabeira à prefeitura do Rio. Na foto que ilustrava a matéria na internet, a imagem de Niemeyer aos 100 anos acrescentava à toda a sua firmeza de opção política – e Gabeira continua sendo para mim um dos pouquíssimos políticos do país que merecem meu respeito – inevitavelmente um certo ar de idoso sábio, a quem se vai pedir conselho e proteção, assim como se ia na Bahia a Mãe Menininha do Gantois.

Há dez anos atrás vivi uma das situações mais emocionantes em termos profissionais: logo no início da excursão didática com estudantes e professores da Universidade Técnica de Viena, eu estive por algo mais de meia hora ao lado de Oscar Niemeyer, no seu escritório, traduzindo ao alemão a sua aula para os austríacos. Havíamos chegado ao Rio sem a confirmação do encontro, e menos de 48 horas depois estávamos ali. Eu lembro de o coração ter dado uma boa acelerada na hora em que Niemeyer entrou na sala em que o esperávamos, e depois tinha que me concentrar tanto para ouvi-lo, para não interrompê-lo e tentar traduzir consecutivamente as frases ao alemão. Uma palavra eu esqueci por completo: Geländer, corrimão, quando Niemeyer explicava a ausência de corrimão na escada do Itamarati. Mas fiz um gesto e todo mundo entendeu. Creio que, para todos nós, aquele encontro, logo no início da viagem, tenha sido o ponto alto de toda a excursão. Para mim de qualquer jeito.

Faz alguns dias, Celso Jr. (http://cadernosgrampeados.zip.net/) escreveu que ele era bem feliz pelo fato de Phillip Glass ser a Madonna dele, referindo-se à possibilidade de poder estar tão perto de alguém quase mítico. Pois é, eu tenho uma pequena lista de Madonnas e Glasses (será que um dia eu vou poder encontrar Flea?), mas Oscar Niemeyer é o meu Phillip Glass.

sábado, 11 de outubro de 2008

sobre a morte de haider

O mundo inteiro já noticiou a morte do político mais famoso da Áustria, mas a imprensa estranhamente decidiu até agora há pouco, muitas horas depois, não falar da provável alta velocidade com que o carro se deslocava ou especular sobre uma possível embriaguez. Para qualquer pessoa que tenha visto uma foto apenas dos destroços do carro que ele dirigia, é mais que evidente que a velocidade do automóvel era muito, muito alta.
É claro que em um primeiro momento a ressonância coletiva da morte de uma pessoa pública tenda a estar em primeiro plano. Mas recalcar este aspecto do acidente - a alta velocidade e a irresponsabilidade na direção - me parece muito suspeito, pois afinal este é um dado rapidamente divulgado quando um cidadão comum é o personagem em tal cenário. E na imprensa um cidadão comum que, em alta velocidade, cause um acidente com mortes - mesmo que seja somente a própria, como é o caso - é inevitável e rapidamente transformado em criminoso.
Daí que é no mínimo esquisito o presidente do país declarar o acontecido "uma tragédia pessoal". Isso é pouco e muito. Muito pela freqüência com que pessoas morrem em acidentes de trânsito, pois teríamos o tempo todo tragédias, e aquilo que é tão freqüente acaba perdendo a capacidade de horror. Pouco, frente à possibilidade de, sem o carisma de Haider, os dois partidos de extrema-direita voltarem a ser um único; esta perspectiva, sim, trata-se de uma tragédia, só que coletiva, pois nas eleições de há quinze dias eles chegaram a quase 29% dos votos. E tragédia, porque os sucessores de Haider no partido que ele abandonou há alguns anos, são muito mais à direita que ele.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

outono ou domingo de bicicleta


Sexta-feira passada as montanhas amanheceram cobertas de neve. Era o inverno chegando muito rápido. Mas no domingo fez sol, depois de semanas de tempo ruim, e o sol continua pelo menos até amanhã. Fomos de bicicleta de Waging até Laufen e Obersdorf, de lá até Freilassing, uma paisagem muito bonita com lagos, árvores ainda em parte verdes e as montanhas ao fundo, brancas contra o céu azul.
Hoje fiz outras fotos, algumas delas ja pus no flickr, dos amarelos intensos, super bregas e bonitos das árvores.

domingo, 28 de setembro de 2008

distintas democracias

Hoje é dia de eleições na Baviera e na Áustria. Na Baviera, a expectativa é positiva, pois o partido conservador deve perder a maioria absoluta que detém há 42 anos (!) e que lhe permite governar o estado sozinho. A Baviera é algo muito estranho para ser definido politicamente: imaginem um estado tão rico como São Paulo, em comparação aos outros estados do país, mas com o que há de folclórico da Bahia, governado pela Arena/PFL/DEM desde os anos 60. O ACM daqui se chamou Strauss, morreu há 20 anos e só agora o partido cairá para menos de 50 % dos votos. Por isso, se não fosse pela coisa folclórica, talvez a comparação mais acertada fosse o Maranhão…
O caso da Áustria é grave. Provavelmente hoje no final da tarde já os primeiros números da apuração deverão confirmar que os dois partidos de extrema-direita juntos serão no mínimo tão fortes quanto os outros dois grandes partidos, o conservador e o socialista. O cenário é o mesmo de há 9 anos, quando os que propagam o ódio como tempero social chegaram a 27,5% dos votos. Nunca compreendi as narrativas dos últimos anos que insistiam em representar a coalizão entre conservadores e extrema-direita como uma estratégia que teria desmoralizado os últimos. Pode ser que os articulistas e austríacos letrados confiassem por demais nos resultados de eleições destes últimos anos, onde o processo de desorganização e nova estruturação deste grupo estava mais claramente desenhado do que a sua suposta liquidação. Talvez apenas como estrangeiro andando pelas ruas eu tenha a chance de perceber que a base para tal sucesso político nunca sequer esmaeceu.
O grande medo de uma extrema-direita novamente ditar a política em um país como a Áustria vem na verdade de como a estrutura do poder está organizada. Existem na república austríaca três pilares para o funcionamento democrático do governo: o baixo nível de corrupção em todos os planos (posto em dúvida ultimamente pelo processo de compra de aviões para o exército, quando uma CPI que o investigava acabou sendo sufocada no momento exato em que ia conseguir provar a corrupção), um sistema de contagem de votos que faz com que a câmara dos deputados, ou parlamento aqui, represente de maneira mais clara a efetiva percentagem de votos dos eleitores (diferentemente do Brasil, onde um eleitor da Bahia vale mais do que um de São Paulo, ou dos EUA, com sua estrutura criada para impossiblitar pluralidades partidárias), e o voto em bloco dos partidos (que não deixa de impossibilitar ações como a do mensalão – ou será que as facilita, sendo necessário negociar com um apenas, que então divide a grana para a galera????).
As estranhezas começam com o processo de eleição propriamente dito: na Áustria, como na Alemanha, as coalizões são feitas depois das eleições, o que torna o eleitor extremamente secundário, pois tudo, efetivamente tudo, que foi anunciado como programa antes das eleições e mesmo os candidatos podem ser negociados. Não há porque votar neste ou naquele partido por nenhum motivo seguro, pois mesmo se você ache um candidato ou uma candidata bonitinho(a), algo que tem uma chance menor de ser alterado do que qualquer ponto dos programas partidários de hoje para amanhã, ou daqui a uma semana, ele poderá estar fora da esfera política se assim um outro partido exigir no meio das negociações. Um voto na Áustria, se não é um voto no escuro, é um em uma penumbra bem pouco iluminada.
Como se isso não bastasse, a câmara dos deputados governa praticamente sozinha. Como qualquer brasileiro, com a praça dos três poderes como referência, e tendo passado a infância na ditadura – quando a distinção entre as esferas simbólicas e factuais eram mais que evidentes – é sempre muito estranho ver um governo exercido por uma única instância: na Áustria, o senado não tem poder político nenhum, é praticamente incapaz de fazer voltar uma lei à câmara; o presidente tem menos poderes do que a rainha da Inglaterra, age mais como um embaixador geral, um chefe meio sem graça dos embaixadores; e a justiça tende a ser simplesmente ignorada, seja a nacional, seja a européia, não só pelo parlamento, senão também pelos governadores dos estados. Em resumo, a câmara dos deputados age sozinha, faz o quer, até porque o ministério público aqui é composto de ex-parlamentares...
Por isso, a perspectiva da extrema-direita no poder é tão assustadora, porque não há outras instâncias que negociem com o governo.
Os tempos na Baviera são otimistas: o Bayern de Munique perdeu ontem novamente e a útima vez que o time esteve tão mal no campeonato alemão faz 38 anos.
Para daqui a uma semana em Salvador, assim de longe, não vejo nem penumbra....

sábado, 27 de setembro de 2008

o mundo menos belo

Morreu Paul Newman. Triste. No cd-player, Antony and the Johnsons.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Outono Inverno

Três dias cinzentos, com temperaturas ao redor dos 10 graus, não deixam dúvida de como o tempo será para, no mínimo, os próximos 6 meses: daqui para pior. A maioria das pessoas na rua ainda está bronzeada e tem no rosto esta expressão entre saudades das férias – que deveriam ter durado mais –, chateação com a retomada do cotidiano e de ter que tirar do armário as camadas de roupas sucessivamente necessárias a partir de agora.
Entretanto, um grupo não pequeno mas cada vez menor de pessoas parece florescer nesta época do ano e, graças à extrema duração do inverno, como que expressa mais genuinamente o genius loci, ou seria ao menos um bom exemplo para quem queira argumentar em favor desta noção. Apesar de estarem já preparados para o início das temperaturas mais baixas, eles em geral estão algo menos vestidos que os outros, o que lhes garante algum minimíssimo diferencial de agilidade, com o qual indicam estar mais à vontade, enfim, otimistas graças ao cinza geral. As roupas são em geral cafonas, paletós quadriculados, ou de um verde que ninguém usaria no Brasil, sobretudos pretos ou creme para as mulheres, e rapidamente, quase que a partir deles, observa-se o espraiar do look "meio sujinho – cada vez menos limpo", que a ausência do sol permite: menos luz, menos sombras, menos contraste, menor percepção. Generalizando, eles fazem o tipo básico do funcionário público carimbador por aqui.
Mas a maior distinção deste grupo está mesmo na pele: eles chegam a setembro com a mesma palidez com que encerraram março. Intuitivamente alguém que não os tenha visto poderia achar que se trata de uma prevenção contra o câncer de pele. No país com a maior resistência a leis anti-tabagistas, onde adolescentes fumam e bebem como em nenhum outro lugar, esta seria uma atitude muito positiva, efetivamente improvável. O tom levemente amarelo-acinzentado da pele destas pessoas é muitas vezes um dos útlimos sinais de uma Viena cujos edifícios até os anos 80 eram todos cinza e estava muito ao leste de tudo. É uma gente que não tomou sol nenhum no período quando isto é possível, mas tampouco parecem vampiros.
Eu espero que o bronze que peguei na Espanha – fui 4 dias a praia – ainda dure um bom tempo.

sábado, 20 de setembro de 2008

férias em Mallorca

Voltei das férias, 9 dias em Mallorca. A ilha tem uma geografia muito bonita e uma ocupação desastrosa – desordenada e total –, dezenas de milhares de leitos de hotéis para turistas, principalmente alemães e ingleses, assim como um dia será todo o litoral da Bahia (algo como uma Natal, RN, infinitamente prolongada). Exemplos negativos máximos: Platja de Palma e Port d'Alcudia, se isso é a Flórida da Europa, imagine a da Jamaica.

O mar é salgadíssimo e muito azul, daquele azul que se atribue ao Caribe, e as montanhas vão ao seu encontro na costa oeste. Na estrada estreita e em serpentina da serra, vistas deslumbrantes e um nó de gravata: para vencer o desnível, a pista tem um viaduto sobre si mesma. Muitos olivais, autopistas novíssimas a todos os cantos, moinhos de vento abandonados.

No nordeste, Capdepera e Artá parecem quase oásis de "vida normal", com o melhor café da ilha. Mais precisamente é a condição de ilha que reforça inequivocadamente em Mallorca a sensação de O Show de Trumann, evidentes em lugares como Veneza ou Salzburgo. A arquitetura histórica não é precisamente excepcional (destaque para o Castelo Bellver, em Palma), a contemporânea, idem.

Comida muito boa no bar de tapas RKO, inclusive o atendimento (nada da grosseria normal dos garçons espanhóis), sapatos Camper no local onde são fabricados.

A palavra da moda na Espanha parece ser multitudinário: em várias matérias de jornal, no noticiário da TV, em todas as partes, uma moda muito estranha, pois uma aglomeração de uma meia dúzia de 3 ou 4 já anda recebendo este rótulo por lá.

Voltamos de 27 graus para 11 na Áustria. E isso é só o outono...

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

quarta-feira, o fim do mundo

As pessoas aqui estao com medo que o mundo acabe depois de amanha, quarta, quando será feito o experimento na Suíça que tenta reproduzir o início de tudo. O medo é que daí surja um super buraco negro que engula a Terra. Os austríacos, depois que ganharam da Franca no futebol no sábado - a maior surpresa esportiva dos últimos tempos - agora querem poder ver outros jogos com um pouco mais de otimismo.....

domingo, 31 de agosto de 2008

Julian Opie no MAK

Há uma semana atrás fui à exposição de obras recentes do artista britânico Julian Opie, no MAK aqui em Viena. Fiquei fascinado. Fazia tempo que eu não me emocionava tanto com artes visuais. Eu havia visto o cartaz no metrô, achei aquela mulher com roupa de baile, pintada à maneira Pop, super simplificada e forte muito interessante. Boa parte do que está exposto não são pinturas no sentido material da palavra, e sim, imagens digitais, apresentadas em telas de LCD. É assim que, em um retrato, fixo, as jóias podem balançar em movimento pendular, ou os olhos podem de repente piscar, sem que haja nenhum outro movimento. É muito divertido.

Opie ficou famoso quando fez a capa do disco Best of do Blur. Eu conhecia a capa, mas não o artista.
O traço em pena larga, como um pilot de ponta redonda, que lembra a representação humana usada em desenho de arquitetura – antes do computador – aqui faz uso da máquina e entra em movimento cíclico. Todos os retratos contêm esta tensão fantástica de reduzirem ao máximo os meios (os olhos são dois pontos, e o rosto é formado pela linha de contorno, as narinas, linha da boca e sobrancelhas) e guardarem toda a individualidade do retratado.

Para mim, de dentro da minha ausência de referência de arte contemporânea, era como se o meu pintor preferido, Hockney, tivesse aprendido a usar o computador, com a ironia também rejuvenescida. O ponto alto fica com as paisagens, reinterpretações em movimento dos temas clássicos de enquadramento, atualizadas com os automóveis, animais, chuva, vento, movimento na água, tudo com a respectiva trilha sonora.

Passei a semana desenhando retratos à Opie. E fiz até uma animação para o casarão da rua chile "inspirada" nas suas paisagens.

Julian Opie na internet
http://www.julianopie.com/,

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

clichês, clichês

Para a imagem que as emissoras de TV em língua alemã têm da China, adiantou pouco o esforço do governo chinês em realizar as obras do complexo olímpico. Os estúdios que as TVs estatais da Alemanha e da Áustria construíram em Pequim para entrevistas são, sem o menor traço de ironia, uma continuidade do kitsch historicista herdado das fantasias exóticas de finais do século XIX e que continuam a servir de referência para todo e qualquer restaurante de comida chinesa de quinta categoria mundo afora.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

chove lá fora

Esta semana chegaram as águas de março deste lado do mundo, é o fim do verão.......

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

sobre consultas na internet

O que me interessa em estatísticas é a relação intrínseca entre matemática e desenho (algo que de outra maneira está presente também na arquitetura): existe um saber derivado do cálculo estatístico que depende da sua representação gráfica, os conhecimentos que dele se extraem são conseqüência desta.

Enquetes em edições on line de jornais atraem-me em parte por conta deste meu interesse genérico por estatísticas. Gráficos coloridos funcionam. Sei porém que, como os cartões de supermercados que dão brindes ridículos depois de milhares de pontos acumulados, estas enquetes servem acima de tudo para delinear o perfil do leitor – através de estatísticas outras, a este invisíveis – e ir ampliando a eficiência do próprio jornal.

Dentre os jornais que leio com alguma freqüência via internet, o austríaco Der Standard traz as enquetes mais abertas – onde o leitor pode acrescentar sua própria opinião ao clicar o N.R.A. – e também as mais divertidas, englobando temas muito variados.

Quando um jornal realiza tais enquetes, ele verifica a ressonância de sua linha editorial e dá de quebra ao leitor a ilusão de participar do processo de construção da tal opinião pública – da mesma forma que o cliente do cartão do supermercado acha que está ganhando prêmios ao entregar as informações sobre o seu consumo. Em ambos os casos, a representatividade da amostragem é clara e definida, abarca substancialmente o universo correspondente.

Enviei a todos os amigos para quem envio minhas atualizações do blog o link para a página do Minstério Público com a consulta sobre o projeto que destruiu o calçamento de pedras portuguesas da Barra. Desde este momento me pergunto que utilidade tem para o Ministério Público lançar uma enquete via internet sobre o tema. A última vez que visitei o site, havia menos de 15 mil votantes. Que significa a opinião destes 15 mil usuários de internet em relação à população de cerca de três milhões de habitantes da cidade?

Há enquetes também quando o Ministério Público trata de temas, digamos, mais imediatamente perigosos para a sobrevivência individual e coletiva? Por exemplo, supondo um caso de mortes repentinas e numerosas de recém-nascidos em alguma maternidade pública – algo que acontece com alguma freqüência no Brasil –, é feito algum tipo de consulta ao público sobre a validade da argumentação de supostos responsáveis? Fazendo a pergunta ao contrário, que peso é dado aos pareceres técnicos a que se tem acesso no mesmo site?

Não acompanho a atuação do Ministério Público da Bahia. Mas um amigo que mora na Barra me escreveu que no dia 14 de agosto, amanhã, dia previsto para a audiência, a obra de instalação do novo calçamento já deve estar praticamente pronta.

Tenho medo que a enquete via internet venha a ter a mais nefasta de suas utilidades: se alguns poucos milhares dizem sim à retirada das pedras portuguesas, quem trata tal ação pode lavar as mãos, alegando o desejo de uma certa "maioria". Caso vença a opinião dos que "não concordam com o projeto em execução", pode ser dito que agora já está praticamente tudo pronto, que não tem por quê desfazer a obra. Ou pior, que a estes, mesmo perdendo, tenha sido oferecida a sensação de participar "democraticamente" de alguma decisão, assim, como quem no fim do ano troca pontos acumulados por prêmios.

Espero, embora temeroso, que qualquer decisão a favor do calçamento de pedras portuguesas não venha a punir o cidadão, deixando a cargo do Estado os gastos referentes a uma obra a ser feita e refeita três vezes.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Depois das pedras portuguesas, acessibilidade em toda Salvador

Os técnicos da FML, responsáveis pelo projeto que retirou as pedras portuguesas da Barra, sabem como fazer para que elas sejam bem instaladas. Isto pode ser lido em um email-corrente com o qual eles defendem o seu projeto. Nunca duvidei desta capacitação técnica.


Daí que, se há o saber técnico para tal e de acordo com a defesa do projeto que pode ser lida no site do Ministério Público, a única argumentação que restaria contra as pedras portuguesas é que, ainda que corretamente aplicadas, elas continuariam a descumprir o estabelecido pela ABNT no que diz respeito a acessibilidade.


Sem entrar no mérito da ABNT – e caberia ao Ministério Público levar a ação até o questionamento da própria ABNT – eu gostaria que os funcionários públicos fossem conseqüentes em seu argumento, mesmo que conseqüência não é algo que se exija de ninguém no Brasil.


É chegada a hora de fazer o Pelourinho entrar nas normas da ABNT: removamos todo o calçamento histórico, que sejam instalados em todos edifícios do centro histórico – sem exceção – elevadores que permitam cadeirantes fazer um giro completo antes ou depois do embarque.


Que a acessibilidade não seja uma questão para ricos, uma questão apenas importante na orla da Barra: que absolutamente todas as encostas cobertas com bairros populares sejam atendidas por planos inclinados, e que caminhos sem degraus levem cadeirantes pobres a cada casa de favela. E para não parecer que passei para o lado dos que defendem favela, creio que seria também tarefa da FML produzir montes de projetos para elevadores para cada edifício de todos os conjuntos habitacionais da cidade, para que cada apartamento seja acessível, e exigir por lei que cada morador adapte o seu banheiro e suas portas internas para o uso por cadeirantes.


Isto poderia contemplar um certo desejo de totalidade expresso no dito email, segundo o qual, se fosse possível, a FML removeria todas as pedras portuguesas da cidade. Acabo de propor um horizonte infinito para tal empreitada.


Não deveriam esquecer também de arrebentar as escadarias da igreja do Bomfim e instalar uma daquelas rampas horrorosas que conhecemos das portas de agências bancárias. Se bem que ali não seria exatamente preciso, pois, segundo a tradição, quem vai ao Bomfim já vai levando um ex-voto para pagar a promessa por um membro curado. A Salvador só resta um milagre.

sábado, 2 de agosto de 2008

Viena, julho de 2008

Estao espalhados pela cidade milhares destes simpáticos cachorros-cartazes, lembrando aos donos de animais o valor da multa - 36 euros - caso os parques e jardins nao sejam devidamente limpos depois dos passeios diários.
Em um lugar onde quase todo mundo possui cachorro, tal campanha da prefeitura foi iniciada somente depois de há dois anos um grupo de moradores ter organizado um abaixo assinado contra a "cagacao da cidade". Antes da multa, uma campanha de conscientizacao mostrou-se pouco eficiente. Em uma cidade onde as pessoas levam seus cachorros aos restaurantes, bares, etc esta nao é uma tarefa fácil.
O mais interessante é o fato de o espaco público ser de interesse dos moradores, que ainda o utilizam, pois as líderes do movimento foram maes que defendiam o espaco para seus filhos brincarem. Dizem que as pessoas gostam muito dos cachorrinhos-cartazes e os levam para casa. Mas talvez seja uma acao planejada dos donos de caes...

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

oriente e ocidente nas cabeças

Hoje retornei à barbearia do turco muito religioso – para não dizer fundamentalista – daqui do bairro em Viena. No mundo de língua alemã não existem mais barbearias nem barbeiros, cortar cabelo é profissão de mulher e elas só aprendem aquilo que no Brasil seria chamado de corte de cabelo feminino. Para mim esta é uma grande perda. Creio que a profissão se tornou aqui tão exclusivamente feminina da mesma maneira que a de professora(-) primária(o) no Brasil: não por feminismo, senão por causa dos salários baixos. Daí que em Viena apenas entre imigrantes turcos encontram-se barbearias como as do Brasil. Esta fica a uns dez minutos daqui, num trecho do bairro com uma percentagem bem maior de imigrantes, ao lado de uma vendinha também turca, onde sempre há mulheres de véu fazendo compras. O cara corta muito bem, a barbearia é lotada de turcos e não se entende nada do que eles falam, e na rádio a programação com certeza é de músicas religiosas (as pop do canal turco da TV a cabo são bem diferentes).


Depois de passar três meses no Brasil, muito do que tende a se tornar costumeiro com o tempo reaparece como estranho: a maior dificuldade cultural de quando cheguei a Viena foram exatamente as mulheres de véu na sala de aula do curso de alemão, que não dirigiam a palavra aos homens. Hoje, quinze anos depois, a política aqui fala de integração, referindo-se a famílias que moram aqui há décadas, separados ao máximo, como parece ser o desejo de todos. Só as bombas dos últimos anos romperam a estratégia de recalque do problema.


Cheguei de Salvador poucas horas antes de Turquia e Alemanha se enfrentarem pela Copa da Europa, há pouco mais de um mês, e na estação de trem em Munique havia um grupo de adolescentes – nascidos na Alemanha, provavelmente já netos de imigrantes – completamente fantasiados com as cores da Turquia, incluindo maquiagem branca e vermelha. Ao vê-los asim perdi inclusive um pouco da vontade de torcer para eles sem diminuir em nada a torcida contra a Alemanha. Chegando do Brasil naquele momento, não pude deixar de pensar que se os avós deles tivessem emigrado ao Brasil, isto não seria bem assim. E elas não estariam usando véu. Nunca vou me acostumar com mulheres usando véu. E nem com alemãs ou austríacas cortando o meu cabelo.

terça-feira, 22 de julho de 2008

na cidade do automóvel

Stuttgart

Fomos a Stuttgart para o aniversário de Kathrin; ela estava com um vestido lindo e fez um jantar ótimo. As crianças cresceram, como é de se esperar.

Em Stuttgart há sabores de sorvete muito estranhos: sorvete de canela na sorveteria, e no restaurante, acompanhando um creme caramelizado como sobremesa, sorvete de vinagre balsâmico. Eu, que não conhecia, não deixei de experimentar; gostei, mas creio que em outra combinação, que não seja assim com algo muito doce, deve ser muito difícil.

O centro da cidade é um misto de reconstrução de edifícios históricos com a espacialidade de um campus universitário, um tanto ilhado por autopistas urbanas, costurado por caminhos para pedestres que atravessam shoppings e mercados antigos. A arquitetura de tijolo escuro e pedra talhada com motivos secessionistas não deixou de ser uma surpresa, na cidade de muitas ladeiras e árvores e grandes panoramas.

O Weissenhofsiedlung guarda uma emoção histórica de registro de pioneirismo, a arquitetura do Momo de outras ocasiões imediatamente posteriores é sem dúvida mais refinada, mas não seria diferente. A casa da esquina de Le Corbusier restaurada e transformada em museu vale uma viagem até lá, e estar diante das unidades desenhadas por Mart Stam vale um retorno.

Minha grande expectativa porém era em relação ao Museu da Mercedes Benz, do UN Studio. Não me perguntem nada dos carros e caminhões, só vi o espaço, e que espaço! Sei que tem gente que acha que Eisenman não dá conta das dobras de Deleuze (eu acho que a obra dele vai além) mas alegar que o trabalho do UN Studio não ultrapassa estas duas instâcias é má vontade ou ideologia. O museu poderia ter menos objetos expostos e em alguns momentos – nas salas com caminhões – o pé-direito poderia ser mais alto, mas nada que comprometa a fruição de um espaço que é puro contínuo, desorientação programada e fluidez. Vistas deslumbrantes sem peitoril algum, elevadores futuristas e acabamento perfeito. É inevitável não pensar no Guggenheim de Wright (a arquitetura do museu não deixa de ser um exercício de atualização da idéia), e começar a esquecer de ter visto a Staatsgalerie de Stirling, também ali em Stuttgart, com suas referências arquitetônicas hierarquizadas. Acho que deste prédio, ou melhor, do corrimão tão exagerado quanto feio de sua área externa, pode ter vindo a "inspiração" para os horrorosos tubos de aço das escadas do Shopping Salvador.


Mais fotos no álbum do flickr
http://www.flickr.com/photos/mcorreiacampos/


quarta-feira, 16 de julho de 2008

notícia velha

Finalmente ontem, com a sensação de ser o último dos brasileiros a fazê-lo, assisti a Tropa de Elite. Fiquei impressionado de como um filme pôde ganhar o maior prêmio em um dos festivais mais importantes do mundo com uma estética, digamos assim, tão rasa. Em termos de montagem, condução de câmera, fotografia e narrativa, era inevitável lembrar de séries de TV como The Office ou a sua equivalente alemã Stromberg, satíricas e estranhamente hilárias, exatamente por fazer humor através do "estilo documentário" com situações nas quais o ambiente do capital privado comporta-se exatamente como aqueles estatais, perdidos na burocracia em função da própria escala.

Talvez seja esta escolha por um "estilo de documentário" tão ortodoxo quanto desgastado que torne tão evidentes a fraqueza de outros detalhes: por mais que estudantes de direito não se destaquem normalmente por suas opções de gosto estético, creio que Shiny happy people do REM e Polícia dos Titãs seriam dois números mais que improváveis em qualquer festa em 1997. E a obviedade kitsch de o grupo da faculdade do policial Mathias ter que discutir Vigiar e Punir de Foucault é brochante. Na construção dos personagens falta profundidade, o espectador acaba indiferente frente à morte de uma das três figuras centrais, cena envolta de uma expectativa tão usual como desgastada. Também não se consegue entender porque precisam ser repetidas tanto a cena de abertura, esta quase que inteiramente no meio do filme, como a cena de tortura, esvaziada completamente de impacto na terceira vez em que surge na tela. Poderíamos ter visto ao menos o depósito dos eficientes sacos plásticos da polícia.

Mas tudo isso pode ser contraposto com aquela velha argumentação de que este é um filme de conteúdo (deve ter sido este o argumento em Berlim), mas a única mensagem mais ou menos esclarecedora do filme é a que indica a responsabilidade dos consumidores de drogas de classe média e suas contradições no jogo social do país. E aqui mais uma vez a repetição sem sutileza e aprofundamento acaba por deixar a sensação de que em quinze minutos, no máximo, o mesmo conteúdo poderia ser transmitido. Neste ponto, ele se alinha com uma certa tradição acadêmica, que não por acaso tem em Foucault uma das suas referências mais fortes, de tentar apresentar uma idéia através de espirais explicativas que em vez de enriquecê-la acaba por levar à desconfiança da sua validade. O ponto forte do filme é sem dúvida a atuação dos atores, em especial Wagner Moura e Fábio Lago. Que Tropa não tenha sido indicado para concorrer ao Oscar, mesmo sem ter visto O ano em que meus pais saíram de férias, parece-me uma decisão acertada, frente a um certa qualidade de acabamento das produções nacionais que chegaram a participar da cerimônia.

Fico apenas com a dúvida sobre a eficiência do modo como o filme toca na nossa – brasileira – evidente, insaciável e histórica necessidade de ordem. É claro que esta dúvida, que não chega porém a se tornar um incômodo, é uma conseqüência vital de uma certa ambigüidade que o filme acertadamente explora. Mas sem ir a fundo, ou se contentando com a "argumentação sistemática" foucaultiana - o filme fica ali no nível mesmo daquele debate em sala de aula que é mostrado -, ele provavelmente torna-se mais ineficiente do que o aparente engajamento tente evidenciar, algo comum a tudo que toma este corpo teórico como referência e a tudo o que em geral se pretenda tão engajado. Os supostos vídeos rodados por crianças e adolescentes exibidos na internet que tentam reproduzir as cenas dos sacos plásticos são a resposta lógica e pertinente a tal empreitada.

sábado, 12 de julho de 2008

de uma canção

"Sometimes it feels like the world is falling asleep
How do you wake someone up from inside a dream?
(...)
A product to advertise
A market to monopolize
(...)
Enemies to neutralize
No time to apologize
Shot them to tranquilize
Weapons to synchronize
Cities to vaporize"

The Strokes, the ize of the world, do álbum First Impressions of the Earth

De alguma maneira é como se eles estivessem falando do programa de ação atualmente em uso para a cidade de Salvador

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Salvador cidade perdida

Até parece que finalmente a cidade da Bahia chegou lá no nível do Rio, cidade/estado contra a qual, mesmo que veladamente, Salvador sempre tentou se medir: um governo ligado aos interesses de grupos religiosos não-tradicionais coincide com a era das chacinas de jovens moradores de bairros de pobres. Mussurunga é a nova Cidade de Deus.

A grande medida do que Salvador é hoje foi dada recentemente por um leitor de A Tarde que, no meio do debate sobre a retirada das pedras portuguesas do Porto da Barra, sugeria como modelo a nova orla de Aracaju. Nunca fui à capital de Sergipe, não tenho como avaliar esta referência, mas pertenço a uma geração que ainda conheceu a piada boba que dizia que o equivalente do Bahiano de Tênis em Aracaju era o Sergipano de Conga. Não sei se ainda existe a Conga para ser comprada, mas o Bahaino de Tênis virou uma padaria horrorosa. Quando o Rio de Janeiro deixou de ser referência, Salvador parecia querer olhar para Miami via Barra da Tijuca, mas hoje a referência possível parece ser mesmo Aracaju. Ou seria Belford Roxo?

O ferrorama inacabado faz par com um dos piores índices de ensino público do país, este condição para aquele. As barracas da orla que mimetizam o que seria uma favela linear, a área do antigo aeroclube, os passeios de 1,20m de largura na área da Av. Tancredo Neves, o anseio por demolir a Fonte Nova, a espera indefinida por um telhado das baianas de Amaralina, um subúrbio de imagens menos atrativas do que aquelas exibidas na TV quando de algum ataque terrotista em Bagdá, o fim do calçamento de pedras portuguesas no Porto da Barra. Tudo pode parecer um luxo frente às chacinas, mas não é. É programático.

Hoje fui informado que as árvores da Barra, não só as pedras portuguesas, estão sendo sacrificadas em nome do novo calçamento. Poderiam aproveitar e exterminar os meninos de rua do bairro, e reinstalar as passarelas para caminhantes em salto alto no Pelourinho, seria um pacote de medidas de sentido reconhecível, possível de ser bastante ampliado. Para a Barra, poderiam instalar ainda elevadores para a faixa de praia, esta poderia vir a ser azulejada, junto com a faixa de alvenaria da base dos fortes, e dessalinizadores de ar poderiam proteger os automóveis de quem por ali passa. Tudo leva a crer que o futuro da Barra está esboçado no Largo Dois de Julho.

No Rio de Janeiro não há nem nunca houve barracas de praia, nem ninguém pensaria em destruir o calçadão em pedras portuguesas de Copacabana, nem as famosas ondas, nem o trabalho de Burle Marx. E o Metrô vai do subúrbio a Copacabana.

Copacabana

E há dez anos atrás, quando Lisboa criou um bairro para a Expo, não deve ter havido dúvidas quanto ao material a ser usado para as grandes e generosas áreas destinadas aos pedestres: pedras portuguesas. Elas estão lá, em ótimo estado, sem oferecer barreiras a qualquer tipo de usuário. Como em toda a cidade.

Lisboa

Mas estas são referências muito distantes, já há muito voluntariamente perdidas. As atuais de Salvador parecem se limitar ao que há de ruim em outras cidades, seja Rio de Janeiro ou Feira de Santana. Entramos no novo tempo, aquele onde favela é solução urbanística e o cinismo e a indiferença apenas vão contabilizando o número de mortos em estatísticas, permitidas ou não.

Logo não haverá árvores em Salvador, algo que acontecerá mesmo antes do grande dilúvio redentor, aquele causado pela calota polar derretida e que afogará os arranha-céus da orla que já começaram a aparecer. Há esperança.



sexta-feira, 27 de junho de 2008

salvador, três meses depois

Fiz uma viagem a Itiúba nestes três meses que estive em Salvador que me fez obviamente passar por Feira de Santana. Na viagem de volta, deixando um sertao bem verde para trás, num domingo no final da tarde, percebi que a maior impressao que Salvador me deixou nesta estadia é que ela nunca esteve tao Feira de Santana.
A substituicao do calcamento de pedras portuguesas da Barra por granito e concreto, noticia em A Tarde hoje, sexta-feira 27 de junho, paginas 4 e 5, e so uma confirmacao dessa impressao.
Como um dos entrevistados, chamei a atencao para a relacao de textura e materialidade entre os elementos do calcamento e a arquitetura historica ali presente. Sera que a proxima decisao do IPHAN preve o azulejamento das superficies de pedra que formam as bases dos fortes?

segunda-feira, 23 de junho de 2008

o que estou escutando

Ontem à noite assisti a Control, de Anton Corbijn, e hoje pela manha o Joy Division tomou o lugar das duas últimas sonatas para piano de Schubert, que vinha sendo a trilha sonora do início do dia nas últimas semanas.

Isto é muito mais do que futebol, mesmo?

Tudo bem que a definição que um taxista me deu hoje para a Eurocopa seja provavelmente a melhor que já vi: é uma Copa do Mundo sem Brasil e Argentina. Tudo bem que os jogos até agora tenham sido muito dinâmicos e que das grandes nações do futebol europeu só reste a Alemanha na semifinal, o que dá um gosto a mais (torceremos no Brasil todos pela Turquia, me imagino). Mas chamar cada chute a gol de perigosíssimo, cada drible de maravilhoso, acompanhar todos os lances com uma profusão de superlativos, quase sempre gritados, e repetir várias vezes que "isso aqui é muito mais do que futebol", como tem feito a emissora de TV que transmite o campeonato, é definitivamente fora de medida. O exagero é tamanho que dificilmente deve passar desapercebido e creio que muitos devem se perguntar o que é mesmo esse a mais, esse muito mais, que é oferecido. Além de todo este abuso do futebol para realizar auto-propaganda eu não descobri nada.

terça-feira, 17 de junho de 2008

novo mozilla firefox

hoje acompanhei a campanha do lancamento e fiz o download do mozilla firefox 3. Concordo que o botao de retorno ficou um pouco grande demais, como já vi alguém reclamar, mas o que já era o melhor browser agora conseguiu se superar. Só recomendo.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Before the devil knows you're dead

Faz uma semana que assisti a "Antes que o Diabo saiba que você está morto" e até hoje estive em dúvida por onde começar a escrever sobre este filme assustador, certeiro e poderoso. Terminada a sessão fiquei com a vontade de escrever a Sidney Lumet, o diretor, um email dizendo "Muito Obrigado" (caso alguém saiba como fazer para esta mensagem chegar até ele, envie-a em meu nome, por favor!).

Se grandes obras se definem por um poder de síntese e densidade, por um acabamento impecável, precisão de meios e uma reivindicação de universalidade, este filme é sem dúvida uma delas, atingindo em cheio a grande angústia desta época (a de agora mesmo). Como se não bastasse o conteúdo, a forma é de um acerto não menor: fiquei pensando que o filme poderia ter sido editado dentro de uma narrativa mais clássica e depois sofrer a edição que fragmenta o tempo narrativo, e no meio desta semana li isso numa crítica; e continuo até hoje maravilhado com aquele véu negro, denso, sobre a fotografia todo o tempo, construindo a dramaticidade. E pela maestria como a história no meio do filme abandona a estrutura centrada em dois personagens para um outro arranjo ao incorporar uma terceira figura que estabelece um equilíbrio narrativo totalmente diferente.

E como se tudo isso ainda não fosse suficiente, um conjunto de atrizes e atores em desempenhos soberbos, longe da pieguice melodramática que normalmente garante oscars. E como tudo neste filme significa e arrisca mesmo chegar ao nível do simbólico, a direção de arte é alucinante ao escolher o design asséptico, luxuoso e muito de moda da portaria onde interfonam ao diabo. E há também uma referência ao Brasil no filme, super acertada, uma miragem como destino de uma fuga da vida que não se pode mais suportar. E que miragem!

No meio disso tudo, uma menina ao telefone chama o pai de fracassado por não ter conseguido 130 dólares para ela ir a um parque de diversão. Fiquei achando que é esta cena, muito cotidiana, que o diretor queria nos mostrar, parece que tudo gira ao redor dela.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

o que rola no mp3 player

Celso Jr. tem um jeito muito legal de escrever no blog o que ele está ouvindo no momento. Sempre quis imitá-lo, mas é que há meses escuto obsessivamente Two Gallants. Despite what you've been told está todos os dias na lista.

"but you know by now it's half past late

and i only came here for escape

you , you’re just my next mistake

like me to you "

two gallants


segunda-feira, 9 de junho de 2008

Beleza Pura?

Em entrevista à Folha de São Paulo na segunda-feira, dia 26 de maio último, Caetano Veloso expôs seus argumentos contra as políticas de cotas raciais que não diferem muito do que penso sobre o assunto.

Daí que novamente achei que deveria escrever sobre algo que me chateou muito, a abertura da novela da Globo Beleza Pura. Não que eu veja em aberturas de novela em si algo que mereça ser discutido ou comentado, mas Beleza Pura é uma das canções pop nacionais de que mais gosto. A interpretação de A Cor do Som, por exemplo, é certamente fundamental para a música do carnaval de Salvador das décadas seguintes, com sua combinação, ainda que com os solos de instrumento típicos dos anos 70, da guitarra com os atabaques.

Mas que uma canção cujo verso mais constante afirma "não me amarra dinheiro, não" seja exatamente retratada por uma dos maiores símbolos do dinheiro, que é o universo da moda/alta costura – especialmente símbolo pois este mundo evidencia melhor do que qualquer outro a dissociação do valor de venda do de produção – é algo de uma malvadeza sem fim.

Pior ainda, os negros de Salvador com contas e búzios no cabelo (Gil na capa de Realce) foram substituídos por 2 negras cotistas, de cabelo quase alisado (sim, o cabelo de Condoleeza é politicamente incorreto, e de qualquer jeito feio). Elegância e formosura cantadas pela canção caminham no sentido oposto ao que vemos naquelas imagens.

E para completar a "obra de arte total", a versão branquela e sem graça da música feita pelo Skank; será que é possível regravar sem percussão e qualquer ironia a música que celebrou a cultura afro emergente de Salvador nos anos 70?

Para quem queira ver a canção na versão de A Cor do Som:

http://www.youtube.com/watch?v=RwIiEsUQFo4

quinta-feira, 29 de maio de 2008

camille paglia no tca ou uma difícil comunicação

O intérprete não colaborou, tinha uma voz muito monótona, depois de menos de cinco minutos resolvi ouvir a fala original em inglês. Gostaria que esta tivesse sido a única razão para a debandada do público, mas temo que o maior problema tenha sido de conteúdo. Camille Paglia está longe de poder ser enquadrada na tradição de pensamento dos filósofos/sociólogos franceses que a antecederam na série Fronteiras do Pensamento, tradição esta na qual se reconhece boa parte do pensamento local. Ela não estava aqui para dar nenhuma meta-explicação para os problemas mundiais e todo mundo ir para casa depois achando que "entende mais do sistema".

Camille Paglia além disso apresentou uma mensagem fragmentada ligada ao debate sobre o gênero através da análise formal e interpretativa de um grande número de obras de arte do século XX. Aqui duas instâncias a colocam ainda mais distante da platéia: uma que é o modo operacional inaugurado pelo new criticism, de caráter formal e individualista. A outra é o debate, tanto teórico como da ordem da vida cotidiana, feminista/pós-feminista no mundo europeu/norte-americano, completamente estranho à realidade brasileira. Sem estas duas ferramentas torna-se muito difícil para o público estabelecer uma comunicação com a conferência. A distância que indicava esta impossibilidade específica ficou demonstrada quando a apresentadora usou o termo literatura comparativa em vez de literatura comparada.... eu mesmo não entendo até agora porque convidar uma médica da área de reprodução artificial para fazer esta introdução.

Mas creio que há ainda uma dificuldade mais elementar: o público aceita as meta-narrativas de sociólogos e "filósofos aplicados" porque elas ainda contêm um sentido pragmático em seu conteúdo, ou seja, deste tipo de conferência deduz-se um conhecimento de valor reconhecidamente prático. Percebo que uma boa parte da irritação do público em relação à conferência de Camille Paglia é a completa ausência de vocabulário de estética que dê conta da questão formal. Daí a ausência de interlocução.

Não que a conferência de Paglia tenha sido exatamente inovadora ou brilhante, afinal ela apresentou o mesmo fio condutor presente no seu livro mais famoso Sexual Personae: Art and Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson de 1990. Mas apenas a interpretação à luz da história recente do legendário beijo entre Madonna e Britney Spears num show da MTV já deveria ter deixado a platéia mais do que satisfeita. E aí o círculo mais uma vez se fecha: porque tenho a impressão que o público ainda presente neste momento em geral considerou esta análise uma pequena anedota. E de qualquer forma havia muito pouca gente que conhecia o trabalho de Tom of Finnland.


êxtase ou Cristina Ortiz no TCA

Na quarta-feira da semana passada, dia 21 de maio, Cristina Ortiz levou o público ao êxtase no Teatro Castro Alves. O impacto violento foi dado de imediato, com uma interpretação visceral de Chopin a platéia foi levada a uma altura impensável e depois a música que se seguiu, Brahms, Debussy e mais uma vez Brahms com o concerto para piano e orquestra n° 2, foi equilibrando a todos num céu, levados contra qualquer gravidade que tentasse atrair-nos ao chão, como um vento que continuasse soprando. A última vez que tive tal experiência com música ao vivo já faz uns três anos, era o show de Los Hermanos na Concha Acústica, lançando o disco 4.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

da política à arquitetura e daí à política mais uma vez e ao Caramuru

O Docomomo-Bahia lançou uma campanha pública para tentar salvar o Edifício Caramuru. Pelo que li em A Tarde da última sexta-feira, em reportagem de autoria de Mary Weinstein sobre uma visita de técnicos e políticos ao local, o governador do Estado dá a entender que o parecer dos técnicos, que indica o tombamento do prédio, pode não ser levado em conta. Eu só me pergunto se os políticos brasileiros decidem da mesma maneira como decidem sobre o patrimônio cultural, quando se trata da liberação de uma nova vacina ou sobre as condições de transporte e armazenamento de alimentos, ou ainda sobre o traçado de novas avenidas ou sobre a política de juros: vale mais o que "quem governa" acha? (porque seria "achismo" mesmo, afinal não é possível que um político seja técnico em todas estas áreas, incluindo a cultural).

Mas parece que com cultura, e com arquitetura em especial, as coisas são decididas, digamos assim, de uma maneira menos estritamente técnica. Ou nem há o que decidir. Há incentivos públicos hoje para cinema, artes visuais, teatro, música (para esta expressão artística há muito incentivo), mas nada para arquitetura. Praticamente a única forma em que isso acontece, em todos os níveis de governo, é via patrimônio histórico, ou seja, nunca incidindo sobre a produção contemporânea. Tudo parece indicar que o país de Niemeyer não entende que arquitetura é parte do seu fazer cultural. Senão, o Caramuru não seria objeto de tantas dúvidas.

Por outro lado, por mais triste que a situação seja para quem tenha alguma relação de interesse por arquitetura, há algum avanço em relação àquilo que ocorreu com o Clube Português. Há cinco meses atrás, o clube foi demolido sem nenhum patamar de negociação. Ao Caramuru está sendo dada a oportunidade de debate, por mais assustador que seja o nível de discussão (demolição ou não). Mas não temos efetivamente nenhuma garantia contra uma ação noturna, ou em um fim de semana prolongado, que venha a repetir o destino de outras edificações que "atrapalhavam" os interesses puramente financeiros na cidade. Até porque mesmo a sensibilidade dos órgãos de patrimônio para a arquitetura do século XX ainda precisa ser cultivada.

Em poucas situações deve haver uma nitidez tão grande na relação entre salvar um patrimônio recente e tentar manter alguma validade cultural da arquitetura no momento atual.

Para quem não lembra (algo muito improvável, eu espero) e para quem não conheceu o mérito maior de sua arquitetura, algumas fotos que fiz, pouco antes de seus brises serem desmontados.






sábado, 10 de maio de 2008

eu, eu mesmo e irene

"todo o meu trabalho é altamente pessoal; é mais pessoal do que eu mesmo. Quero dizer, lendo os meus livros tem-se uma relação muito mais íntima comigo do que tendo uma relação comigo."
Will Self

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Espanha X Áustria

Atualmente o El País é sem dúvida o melhor jornal em versão web que conheço. Seu caderno cultural incluído. Isto explica em parte o interesse do jornal pelo texto de Jelinek sobre o monstro de Amstetten, como o pai-estuprador-avô do porão na Áustria já ficou conhecido. Mas isso apenas em parte.

Quem lê o artigo não pode deixar de notar um certo tom de ironia ou mesmo deboche por parte de seu autor, o que somente se explica pelo preconceito histórico dos países ricos da Europa Central e do Norte contra os seus vizinhos do sul. Espanha e Portugal ainda são vistos por uma parcela considerável da opinião pública daqueles países como os retrógrados católicos machistas que vivem da subvenção da União Européia. No caso da Espanha, todo o avanço social e material dos últimos 30 anos é quase que ignorado. Nem mesmo o marco representado pela nova lei de união civil espanhola, que iguala em todos os campos do direito a união civil entre homossexuais e entre heterossexuais, foi capaz de alterar significativamente este preconceito. Daí o articulista de El País não tentar esconder um certo gozo ao afirmar que "alguma coisa a Áustria deve ter, para que seus escritores a tratem tão mal."

O artigo é muito bom, para quem quiser ler

http://www.elpais.com/articulo/cultura/Jelinek/agita/horrores/monstruo/Amstetten/elpepicul/20080508elpepicul_1/Tes

E o texto de Jelinek, em alemão,

http://www.elfriedejelinek.com/

na seção aktuelles.

terça-feira, 29 de abril de 2008

muito feliz!

A Praça Turca, em Juazeiro, Bahia, projeto de Naia e Moacyr, acaba de ganhar o Prêmio Melhor Obra de Arquitetura de Espaço Urbano na VI Bienal Ibero-americana, que acontece este ano em Lisboa, Portugal.

Mais informaçoes sobre o projeto, no site do escritório:

http://www.sete43arquitetura.com.br/

sábado, 26 de abril de 2008

Ontem à noite no TCA, parte3, Maria Bethânia & Omara Portuondo

Era como se o técnico de som do show estivesse pensando todo o público equipado com fones de ouvido: a grande impressão que ficou da noite de ontem é de um show cujas faixas de som estavam por demais divididas, provavelmente quem sentou nas extremidades esquerda e direita das filas de platéia ouviu resultados sonoros bem distintos. Por outro lado, a potência da amplificação, dirigida linearmente ao público, não condiz com tal concepção: a música era oferecida como se o show estivesse acontecendo a céu aberto, a sala era anulada na constituição do resultado final, o som não envolvia o público, vinha única e exclusivamente das caixas de som de grandíssimo porte, com uma amplificação naturalmente exagerada.

Talvez isso não tivesse sido tão fortemente notado se o espetáculo no palco tivesse tido uma outra dinâmica: longe de um entrosamento verdadeiro, as duas cantoras acabavam por evidenciar limites musicais claros, algo que se revelava metaforicamente nas dificuldades de ambas em cantar uma na língua da outra. A seleção do repertório apenas reforça o diálogo ausente, com seus números óbvios ufanistas e/ou de textos engajados dos anos 70. A banda, apesar da participação de músicos cubanos, é uma típica formação MPB anos 80, teclado a Wagner Tiso e violão por demais eletrizado, que parecia não fazer questão alguma de admitir o contexto sonoro apropriado a Omara Portuondo; não é à toa que o ponto alto do show, as canções Lacho e Drume Negrita tocadas em contínuo, envolviam apenas uma percussão afro e a voz da cantora cubana. De resto, gestos, vozeirão e figurino de Maria Bethânia apenas para atender ao público complacente decidido desde o momento em que compraram o ingresso a adorar o espetáculo, numa noite padecente de diferentes esquizofrenias.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

osba ontem a noite

quarta-feira de um outono quente em salvador, osba para um tca quase vazio. E um pianista incrível, Eduardo Monteiro, tocando uma peca muito bonita de Manuel de Falla.

domingo, 30 de março de 2008

duas semanas depois...

cheguei faz duas semanas; o rio vermelho está congestionado como nunca, o calor é de efeito-estufa, há como sempre menos árvores, prédios novos muito feios, mas a grande novidade é que Salvador descobriu o pé-direito duplo.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Anteontem, vinte anos atrás

Anteontem à noite no TCA, Bernard-Henry Lévy falou para casa cheia sobre o papel do intelectual na sociedade, na abertura da série de conferências intitulada "Fronteiras Braskem do Pensamento". Para ele, o intelectual é a última voz, depois de todas as outras terem sido caladas, de resistência aos regimes totalitários; estes, o pensador francês tornou equivalentes a estratégias de cura (quando a política passa a ser atuação clínica) e ao amplo conceito de ordem. Daí, sua conclusão, ser um dos papéis do intelectual estar atento em lutar pela defesa da desordem.

Não menos interessante é o percurso histórico daquilo que ele chamou de os quatro pilares da formação de um intelectual europeu/francês da sua geração: Lévy passou de uma experiência amplamente coletiva (a segunda guerra mundial e o genocídio dos judeus), para uma cujo caráter coletivo só se pode atribuir à França, já que no resto do mundo maio de 68 foi uma revolta da classe média alta universitária, para outra que ele apenas tomou conhecimento e pode ter como relevante porque, como informado pelo próprio Lévy, os líderes tinham estudado na França, que foi a revolução e os Killing Fields do Cambodja, para uma finalmente completamente situada no nível das idéias, o embate entre as culturas locais e o universalismo nos anos 80. Num processo contínuo de mediatização, o filósofo acaba por revelar uma história pessoal, e dos intelectuais, progressiva e continuamente afastada da experiência. (E talvez por isso ele tenha insistido em dizer que foi à Bósnia na época da guerra, para realizar documentários e reportagens).

Poucas vezes pode-se perceber tamanha coerência: a jovem filha de imigrantes senegaleses recém-formada que teve mais de 70% de seu corpo queimado, porque estava num ônibus à noite depois de horas de trabalho a caminho de casa, no meio das revoltas dos subúrbios franceses de há dois anos atrás é um dado de experiência que precisa ser descartado se um intelectual defende a desordem; dito de outra maneira, defender a desordem em si pode ser interpretado como uma minimização do sofrimento pessoal dela. Trazendo para a experiência atual do Brasil, eu teria uma única pergunta a fazer ao Sr. Lévy: morreremos todos de dengue, enquanto celebramos a desordem? Uma pergunta equivalente, lançada pelo público sobre a violência no país, como era de se esperar, ele não soube responder (a grande referência sobre o país ainda é Celso Furtado); além disso, caso a tradução simultânea não tenha alterado um pouco o sentido do que ele falou, ele acredita que nos EUA havia um problema racial há 50 anos atrás, mas que hoje estaria resolvido......

O problema é que o conjunto das palestras tem como lema trazer o pensamento do mundo contemporâneo para a Bahia: nomes como Phillip Glass, Wim Wenders ou David Byrne poderiam dar conta disto sim, há vinte anos atrás, nos mesmos anos 80 em que Lévy ergueu seu quarto pilar.

Bem, exagerando, é como se alguém fosse fazer uma série de shows que tentasse mostrar um panorama da música pop contemporânea, e em vez de convidar o Cansei de Ser Sexy convidasse o B-52 ou o The Cure. É, eles voltaram, mas não dão o tom.

Aliás, a idéia de quatro pilares de sustentação não deixa de me remeter a uma figura muito regular, um quadrado ou um retângulo, uma mesa, um banco, algo assim, com medo de ser irregular para não balançar. Fiquei pensando que experiências poderiam fazer as vezes de pilares, múltiplos, muito mais do que quatro, e reversíveis, uma hora pilar, outra hora cobertura, outra hora fachada, e de novo pilar, de um intelectual contemporâneo, e arrisco algumas, assim rapidamente: o computador pessoal, a revolução digital, internet e o aprimoramento dos sistemas de busca, Tschernobyl e a catástrofe ecológica, a aids, o fim do socialismo na Europa, o fim da teoria, a espera pelo fim do império, o fim dos povos, o fim da dualidade de gênero, o fim do coletivo, o entretenimento da cultura, o homem-bomba. Será que para ser intelectual alguém ainda precisa saber latim?