quinta-feira, 20 de março de 2008

Anteontem, vinte anos atrás

Anteontem à noite no TCA, Bernard-Henry Lévy falou para casa cheia sobre o papel do intelectual na sociedade, na abertura da série de conferências intitulada "Fronteiras Braskem do Pensamento". Para ele, o intelectual é a última voz, depois de todas as outras terem sido caladas, de resistência aos regimes totalitários; estes, o pensador francês tornou equivalentes a estratégias de cura (quando a política passa a ser atuação clínica) e ao amplo conceito de ordem. Daí, sua conclusão, ser um dos papéis do intelectual estar atento em lutar pela defesa da desordem.

Não menos interessante é o percurso histórico daquilo que ele chamou de os quatro pilares da formação de um intelectual europeu/francês da sua geração: Lévy passou de uma experiência amplamente coletiva (a segunda guerra mundial e o genocídio dos judeus), para uma cujo caráter coletivo só se pode atribuir à França, já que no resto do mundo maio de 68 foi uma revolta da classe média alta universitária, para outra que ele apenas tomou conhecimento e pode ter como relevante porque, como informado pelo próprio Lévy, os líderes tinham estudado na França, que foi a revolução e os Killing Fields do Cambodja, para uma finalmente completamente situada no nível das idéias, o embate entre as culturas locais e o universalismo nos anos 80. Num processo contínuo de mediatização, o filósofo acaba por revelar uma história pessoal, e dos intelectuais, progressiva e continuamente afastada da experiência. (E talvez por isso ele tenha insistido em dizer que foi à Bósnia na época da guerra, para realizar documentários e reportagens).

Poucas vezes pode-se perceber tamanha coerência: a jovem filha de imigrantes senegaleses recém-formada que teve mais de 70% de seu corpo queimado, porque estava num ônibus à noite depois de horas de trabalho a caminho de casa, no meio das revoltas dos subúrbios franceses de há dois anos atrás é um dado de experiência que precisa ser descartado se um intelectual defende a desordem; dito de outra maneira, defender a desordem em si pode ser interpretado como uma minimização do sofrimento pessoal dela. Trazendo para a experiência atual do Brasil, eu teria uma única pergunta a fazer ao Sr. Lévy: morreremos todos de dengue, enquanto celebramos a desordem? Uma pergunta equivalente, lançada pelo público sobre a violência no país, como era de se esperar, ele não soube responder (a grande referência sobre o país ainda é Celso Furtado); além disso, caso a tradução simultânea não tenha alterado um pouco o sentido do que ele falou, ele acredita que nos EUA havia um problema racial há 50 anos atrás, mas que hoje estaria resolvido......

O problema é que o conjunto das palestras tem como lema trazer o pensamento do mundo contemporâneo para a Bahia: nomes como Phillip Glass, Wim Wenders ou David Byrne poderiam dar conta disto sim, há vinte anos atrás, nos mesmos anos 80 em que Lévy ergueu seu quarto pilar.

Bem, exagerando, é como se alguém fosse fazer uma série de shows que tentasse mostrar um panorama da música pop contemporânea, e em vez de convidar o Cansei de Ser Sexy convidasse o B-52 ou o The Cure. É, eles voltaram, mas não dão o tom.

Aliás, a idéia de quatro pilares de sustentação não deixa de me remeter a uma figura muito regular, um quadrado ou um retângulo, uma mesa, um banco, algo assim, com medo de ser irregular para não balançar. Fiquei pensando que experiências poderiam fazer as vezes de pilares, múltiplos, muito mais do que quatro, e reversíveis, uma hora pilar, outra hora cobertura, outra hora fachada, e de novo pilar, de um intelectual contemporâneo, e arrisco algumas, assim rapidamente: o computador pessoal, a revolução digital, internet e o aprimoramento dos sistemas de busca, Tschernobyl e a catástrofe ecológica, a aids, o fim do socialismo na Europa, o fim da teoria, a espera pelo fim do império, o fim dos povos, o fim da dualidade de gênero, o fim do coletivo, o entretenimento da cultura, o homem-bomba. Será que para ser intelectual alguém ainda precisa saber latim?

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