sábado, 26 de abril de 2008

Ontem à noite no TCA, parte3, Maria Bethânia & Omara Portuondo

Era como se o técnico de som do show estivesse pensando todo o público equipado com fones de ouvido: a grande impressão que ficou da noite de ontem é de um show cujas faixas de som estavam por demais divididas, provavelmente quem sentou nas extremidades esquerda e direita das filas de platéia ouviu resultados sonoros bem distintos. Por outro lado, a potência da amplificação, dirigida linearmente ao público, não condiz com tal concepção: a música era oferecida como se o show estivesse acontecendo a céu aberto, a sala era anulada na constituição do resultado final, o som não envolvia o público, vinha única e exclusivamente das caixas de som de grandíssimo porte, com uma amplificação naturalmente exagerada.

Talvez isso não tivesse sido tão fortemente notado se o espetáculo no palco tivesse tido uma outra dinâmica: longe de um entrosamento verdadeiro, as duas cantoras acabavam por evidenciar limites musicais claros, algo que se revelava metaforicamente nas dificuldades de ambas em cantar uma na língua da outra. A seleção do repertório apenas reforça o diálogo ausente, com seus números óbvios ufanistas e/ou de textos engajados dos anos 70. A banda, apesar da participação de músicos cubanos, é uma típica formação MPB anos 80, teclado a Wagner Tiso e violão por demais eletrizado, que parecia não fazer questão alguma de admitir o contexto sonoro apropriado a Omara Portuondo; não é à toa que o ponto alto do show, as canções Lacho e Drume Negrita tocadas em contínuo, envolviam apenas uma percussão afro e a voz da cantora cubana. De resto, gestos, vozeirão e figurino de Maria Bethânia apenas para atender ao público complacente decidido desde o momento em que compraram o ingresso a adorar o espetáculo, numa noite padecente de diferentes esquizofrenias.

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