segunda-feira, 19 de maio de 2008

da política à arquitetura e daí à política mais uma vez e ao Caramuru

O Docomomo-Bahia lançou uma campanha pública para tentar salvar o Edifício Caramuru. Pelo que li em A Tarde da última sexta-feira, em reportagem de autoria de Mary Weinstein sobre uma visita de técnicos e políticos ao local, o governador do Estado dá a entender que o parecer dos técnicos, que indica o tombamento do prédio, pode não ser levado em conta. Eu só me pergunto se os políticos brasileiros decidem da mesma maneira como decidem sobre o patrimônio cultural, quando se trata da liberação de uma nova vacina ou sobre as condições de transporte e armazenamento de alimentos, ou ainda sobre o traçado de novas avenidas ou sobre a política de juros: vale mais o que "quem governa" acha? (porque seria "achismo" mesmo, afinal não é possível que um político seja técnico em todas estas áreas, incluindo a cultural).

Mas parece que com cultura, e com arquitetura em especial, as coisas são decididas, digamos assim, de uma maneira menos estritamente técnica. Ou nem há o que decidir. Há incentivos públicos hoje para cinema, artes visuais, teatro, música (para esta expressão artística há muito incentivo), mas nada para arquitetura. Praticamente a única forma em que isso acontece, em todos os níveis de governo, é via patrimônio histórico, ou seja, nunca incidindo sobre a produção contemporânea. Tudo parece indicar que o país de Niemeyer não entende que arquitetura é parte do seu fazer cultural. Senão, o Caramuru não seria objeto de tantas dúvidas.

Por outro lado, por mais triste que a situação seja para quem tenha alguma relação de interesse por arquitetura, há algum avanço em relação àquilo que ocorreu com o Clube Português. Há cinco meses atrás, o clube foi demolido sem nenhum patamar de negociação. Ao Caramuru está sendo dada a oportunidade de debate, por mais assustador que seja o nível de discussão (demolição ou não). Mas não temos efetivamente nenhuma garantia contra uma ação noturna, ou em um fim de semana prolongado, que venha a repetir o destino de outras edificações que "atrapalhavam" os interesses puramente financeiros na cidade. Até porque mesmo a sensibilidade dos órgãos de patrimônio para a arquitetura do século XX ainda precisa ser cultivada.

Em poucas situações deve haver uma nitidez tão grande na relação entre salvar um patrimônio recente e tentar manter alguma validade cultural da arquitetura no momento atual.

Para quem não lembra (algo muito improvável, eu espero) e para quem não conheceu o mérito maior de sua arquitetura, algumas fotos que fiz, pouco antes de seus brises serem desmontados.






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