segunda-feira, 9 de junho de 2008

Beleza Pura?

Em entrevista à Folha de São Paulo na segunda-feira, dia 26 de maio último, Caetano Veloso expôs seus argumentos contra as políticas de cotas raciais que não diferem muito do que penso sobre o assunto.

Daí que novamente achei que deveria escrever sobre algo que me chateou muito, a abertura da novela da Globo Beleza Pura. Não que eu veja em aberturas de novela em si algo que mereça ser discutido ou comentado, mas Beleza Pura é uma das canções pop nacionais de que mais gosto. A interpretação de A Cor do Som, por exemplo, é certamente fundamental para a música do carnaval de Salvador das décadas seguintes, com sua combinação, ainda que com os solos de instrumento típicos dos anos 70, da guitarra com os atabaques.

Mas que uma canção cujo verso mais constante afirma "não me amarra dinheiro, não" seja exatamente retratada por uma dos maiores símbolos do dinheiro, que é o universo da moda/alta costura – especialmente símbolo pois este mundo evidencia melhor do que qualquer outro a dissociação do valor de venda do de produção – é algo de uma malvadeza sem fim.

Pior ainda, os negros de Salvador com contas e búzios no cabelo (Gil na capa de Realce) foram substituídos por 2 negras cotistas, de cabelo quase alisado (sim, o cabelo de Condoleeza é politicamente incorreto, e de qualquer jeito feio). Elegância e formosura cantadas pela canção caminham no sentido oposto ao que vemos naquelas imagens.

E para completar a "obra de arte total", a versão branquela e sem graça da música feita pelo Skank; será que é possível regravar sem percussão e qualquer ironia a música que celebrou a cultura afro emergente de Salvador nos anos 70?

Para quem queira ver a canção na versão de A Cor do Som:

http://www.youtube.com/watch?v=RwIiEsUQFo4

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