quarta-feira, 16 de julho de 2008

notícia velha

Finalmente ontem, com a sensação de ser o último dos brasileiros a fazê-lo, assisti a Tropa de Elite. Fiquei impressionado de como um filme pôde ganhar o maior prêmio em um dos festivais mais importantes do mundo com uma estética, digamos assim, tão rasa. Em termos de montagem, condução de câmera, fotografia e narrativa, era inevitável lembrar de séries de TV como The Office ou a sua equivalente alemã Stromberg, satíricas e estranhamente hilárias, exatamente por fazer humor através do "estilo documentário" com situações nas quais o ambiente do capital privado comporta-se exatamente como aqueles estatais, perdidos na burocracia em função da própria escala.

Talvez seja esta escolha por um "estilo de documentário" tão ortodoxo quanto desgastado que torne tão evidentes a fraqueza de outros detalhes: por mais que estudantes de direito não se destaquem normalmente por suas opções de gosto estético, creio que Shiny happy people do REM e Polícia dos Titãs seriam dois números mais que improváveis em qualquer festa em 1997. E a obviedade kitsch de o grupo da faculdade do policial Mathias ter que discutir Vigiar e Punir de Foucault é brochante. Na construção dos personagens falta profundidade, o espectador acaba indiferente frente à morte de uma das três figuras centrais, cena envolta de uma expectativa tão usual como desgastada. Também não se consegue entender porque precisam ser repetidas tanto a cena de abertura, esta quase que inteiramente no meio do filme, como a cena de tortura, esvaziada completamente de impacto na terceira vez em que surge na tela. Poderíamos ter visto ao menos o depósito dos eficientes sacos plásticos da polícia.

Mas tudo isso pode ser contraposto com aquela velha argumentação de que este é um filme de conteúdo (deve ter sido este o argumento em Berlim), mas a única mensagem mais ou menos esclarecedora do filme é a que indica a responsabilidade dos consumidores de drogas de classe média e suas contradições no jogo social do país. E aqui mais uma vez a repetição sem sutileza e aprofundamento acaba por deixar a sensação de que em quinze minutos, no máximo, o mesmo conteúdo poderia ser transmitido. Neste ponto, ele se alinha com uma certa tradição acadêmica, que não por acaso tem em Foucault uma das suas referências mais fortes, de tentar apresentar uma idéia através de espirais explicativas que em vez de enriquecê-la acaba por levar à desconfiança da sua validade. O ponto forte do filme é sem dúvida a atuação dos atores, em especial Wagner Moura e Fábio Lago. Que Tropa não tenha sido indicado para concorrer ao Oscar, mesmo sem ter visto O ano em que meus pais saíram de férias, parece-me uma decisão acertada, frente a um certa qualidade de acabamento das produções nacionais que chegaram a participar da cerimônia.

Fico apenas com a dúvida sobre a eficiência do modo como o filme toca na nossa – brasileira – evidente, insaciável e histórica necessidade de ordem. É claro que esta dúvida, que não chega porém a se tornar um incômodo, é uma conseqüência vital de uma certa ambigüidade que o filme acertadamente explora. Mas sem ir a fundo, ou se contentando com a "argumentação sistemática" foucaultiana - o filme fica ali no nível mesmo daquele debate em sala de aula que é mostrado -, ele provavelmente torna-se mais ineficiente do que o aparente engajamento tente evidenciar, algo comum a tudo que toma este corpo teórico como referência e a tudo o que em geral se pretenda tão engajado. Os supostos vídeos rodados por crianças e adolescentes exibidos na internet que tentam reproduzir as cenas dos sacos plásticos são a resposta lógica e pertinente a tal empreitada.

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