sexta-feira, 1 de agosto de 2008

oriente e ocidente nas cabeças

Hoje retornei à barbearia do turco muito religioso – para não dizer fundamentalista – daqui do bairro em Viena. No mundo de língua alemã não existem mais barbearias nem barbeiros, cortar cabelo é profissão de mulher e elas só aprendem aquilo que no Brasil seria chamado de corte de cabelo feminino. Para mim esta é uma grande perda. Creio que a profissão se tornou aqui tão exclusivamente feminina da mesma maneira que a de professora(-) primária(o) no Brasil: não por feminismo, senão por causa dos salários baixos. Daí que em Viena apenas entre imigrantes turcos encontram-se barbearias como as do Brasil. Esta fica a uns dez minutos daqui, num trecho do bairro com uma percentagem bem maior de imigrantes, ao lado de uma vendinha também turca, onde sempre há mulheres de véu fazendo compras. O cara corta muito bem, a barbearia é lotada de turcos e não se entende nada do que eles falam, e na rádio a programação com certeza é de músicas religiosas (as pop do canal turco da TV a cabo são bem diferentes).


Depois de passar três meses no Brasil, muito do que tende a se tornar costumeiro com o tempo reaparece como estranho: a maior dificuldade cultural de quando cheguei a Viena foram exatamente as mulheres de véu na sala de aula do curso de alemão, que não dirigiam a palavra aos homens. Hoje, quinze anos depois, a política aqui fala de integração, referindo-se a famílias que moram aqui há décadas, separados ao máximo, como parece ser o desejo de todos. Só as bombas dos últimos anos romperam a estratégia de recalque do problema.


Cheguei de Salvador poucas horas antes de Turquia e Alemanha se enfrentarem pela Copa da Europa, há pouco mais de um mês, e na estação de trem em Munique havia um grupo de adolescentes – nascidos na Alemanha, provavelmente já netos de imigrantes – completamente fantasiados com as cores da Turquia, incluindo maquiagem branca e vermelha. Ao vê-los asim perdi inclusive um pouco da vontade de torcer para eles sem diminuir em nada a torcida contra a Alemanha. Chegando do Brasil naquele momento, não pude deixar de pensar que se os avós deles tivessem emigrado ao Brasil, isto não seria bem assim. E elas não estariam usando véu. Nunca vou me acostumar com mulheres usando véu. E nem com alemãs ou austríacas cortando o meu cabelo.

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