quarta-feira, 13 de agosto de 2008

sobre consultas na internet

O que me interessa em estatísticas é a relação intrínseca entre matemática e desenho (algo que de outra maneira está presente também na arquitetura): existe um saber derivado do cálculo estatístico que depende da sua representação gráfica, os conhecimentos que dele se extraem são conseqüência desta.

Enquetes em edições on line de jornais atraem-me em parte por conta deste meu interesse genérico por estatísticas. Gráficos coloridos funcionam. Sei porém que, como os cartões de supermercados que dão brindes ridículos depois de milhares de pontos acumulados, estas enquetes servem acima de tudo para delinear o perfil do leitor – através de estatísticas outras, a este invisíveis – e ir ampliando a eficiência do próprio jornal.

Dentre os jornais que leio com alguma freqüência via internet, o austríaco Der Standard traz as enquetes mais abertas – onde o leitor pode acrescentar sua própria opinião ao clicar o N.R.A. – e também as mais divertidas, englobando temas muito variados.

Quando um jornal realiza tais enquetes, ele verifica a ressonância de sua linha editorial e dá de quebra ao leitor a ilusão de participar do processo de construção da tal opinião pública – da mesma forma que o cliente do cartão do supermercado acha que está ganhando prêmios ao entregar as informações sobre o seu consumo. Em ambos os casos, a representatividade da amostragem é clara e definida, abarca substancialmente o universo correspondente.

Enviei a todos os amigos para quem envio minhas atualizações do blog o link para a página do Minstério Público com a consulta sobre o projeto que destruiu o calçamento de pedras portuguesas da Barra. Desde este momento me pergunto que utilidade tem para o Ministério Público lançar uma enquete via internet sobre o tema. A última vez que visitei o site, havia menos de 15 mil votantes. Que significa a opinião destes 15 mil usuários de internet em relação à população de cerca de três milhões de habitantes da cidade?

Há enquetes também quando o Ministério Público trata de temas, digamos, mais imediatamente perigosos para a sobrevivência individual e coletiva? Por exemplo, supondo um caso de mortes repentinas e numerosas de recém-nascidos em alguma maternidade pública – algo que acontece com alguma freqüência no Brasil –, é feito algum tipo de consulta ao público sobre a validade da argumentação de supostos responsáveis? Fazendo a pergunta ao contrário, que peso é dado aos pareceres técnicos a que se tem acesso no mesmo site?

Não acompanho a atuação do Ministério Público da Bahia. Mas um amigo que mora na Barra me escreveu que no dia 14 de agosto, amanhã, dia previsto para a audiência, a obra de instalação do novo calçamento já deve estar praticamente pronta.

Tenho medo que a enquete via internet venha a ter a mais nefasta de suas utilidades: se alguns poucos milhares dizem sim à retirada das pedras portuguesas, quem trata tal ação pode lavar as mãos, alegando o desejo de uma certa "maioria". Caso vença a opinião dos que "não concordam com o projeto em execução", pode ser dito que agora já está praticamente tudo pronto, que não tem por quê desfazer a obra. Ou pior, que a estes, mesmo perdendo, tenha sido oferecida a sensação de participar "democraticamente" de alguma decisão, assim, como quem no fim do ano troca pontos acumulados por prêmios.

Espero, embora temeroso, que qualquer decisão a favor do calçamento de pedras portuguesas não venha a punir o cidadão, deixando a cargo do Estado os gastos referentes a uma obra a ser feita e refeita três vezes.

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