terça-feira, 23 de setembro de 2008

Outono Inverno

Três dias cinzentos, com temperaturas ao redor dos 10 graus, não deixam dúvida de como o tempo será para, no mínimo, os próximos 6 meses: daqui para pior. A maioria das pessoas na rua ainda está bronzeada e tem no rosto esta expressão entre saudades das férias – que deveriam ter durado mais –, chateação com a retomada do cotidiano e de ter que tirar do armário as camadas de roupas sucessivamente necessárias a partir de agora.
Entretanto, um grupo não pequeno mas cada vez menor de pessoas parece florescer nesta época do ano e, graças à extrema duração do inverno, como que expressa mais genuinamente o genius loci, ou seria ao menos um bom exemplo para quem queira argumentar em favor desta noção. Apesar de estarem já preparados para o início das temperaturas mais baixas, eles em geral estão algo menos vestidos que os outros, o que lhes garante algum minimíssimo diferencial de agilidade, com o qual indicam estar mais à vontade, enfim, otimistas graças ao cinza geral. As roupas são em geral cafonas, paletós quadriculados, ou de um verde que ninguém usaria no Brasil, sobretudos pretos ou creme para as mulheres, e rapidamente, quase que a partir deles, observa-se o espraiar do look "meio sujinho – cada vez menos limpo", que a ausência do sol permite: menos luz, menos sombras, menos contraste, menor percepção. Generalizando, eles fazem o tipo básico do funcionário público carimbador por aqui.
Mas a maior distinção deste grupo está mesmo na pele: eles chegam a setembro com a mesma palidez com que encerraram março. Intuitivamente alguém que não os tenha visto poderia achar que se trata de uma prevenção contra o câncer de pele. No país com a maior resistência a leis anti-tabagistas, onde adolescentes fumam e bebem como em nenhum outro lugar, esta seria uma atitude muito positiva, efetivamente improvável. O tom levemente amarelo-acinzentado da pele destas pessoas é muitas vezes um dos útlimos sinais de uma Viena cujos edifícios até os anos 80 eram todos cinza e estava muito ao leste de tudo. É uma gente que não tomou sol nenhum no período quando isto é possível, mas tampouco parecem vampiros.
Eu espero que o bronze que peguei na Espanha – fui 4 dias a praia – ainda dure um bom tempo.

Nenhum comentário :