domingo, 16 de novembro de 2008

de um show de música

Na semana passada passei por uma experiência inédita, assistir a um show de música sem conhecer qualquer canção apresentada, nenhuma linha do texto, nenhuma seqüência melódica. Era o show de Lenine no TCA. No geral não gostei do que ouvi, é uma musicalidade que em nada me agrada.

Mas desconhecendo tudo, você está livre para perceber várias coisas: em primeiro lugar, a constatação de que a amplificação do som, caso retirássemos o forro e o telhado do teatro, permitiria a qualquer pessoa do outro lado da praça escutar, dançar e cantar sem qualquer problema, e creio que os moradores do Campo Grande teriam alguma dificuldade em atender telefonemas ou assitir a TV. Pelo menos nas 4 primeiras canções era como se eu estivesse ao lado do mais potente trio elétrico. Eu creio que a melhor palavra para isso é grosseria, uma recorrente no som amplificado para qualquer show de música popular dentro do teatro.

Com o volume altíssimo, era difícil entender qualquer coisa dita pelo cantor. Mas depois que o som foi de alguma maneira trazido para níveis mais suportáveis, eu continuava sem entender, e olha que eu tentei entender o texto, pois a música iria chegar ao final sem me emocionar. No meio do show, fiquei com a sensação de que Lenine deve ser um bom compositor, para ter um público tão ligado e eu não perceber nenhuma variação na voz. No final do show, fiquei com uma certa impressão de monotonia geral no ar.

Do pouco que pude entender dos textos, principalmente depois das repetições dos refrões, reafirmei uma leve suspeita que tenho – longe de ser uma teoria – de que O Quereres de Caetano Veloso tornou-se a canção mais influente para aquilo que se entende como continuidade da MPB nos últimos 15 anos. Creio que lá em meados dos anos 80 ninguém poderia imaginar isso. Mas desde que eu tomei conhecimento de Chico César tenho esta impressão. O problema é que desta "possível origem" não saiu nada consistente.

Toda vez que penso nisso, tenho que lembrar um comentário dos Smithsons sobre o modernismo esvaziado, tornado clichê através de um processo "up tp bottom" dos hotéis da Flórida dos anos 50 e 60 inspirados na arquitetura brasileira dos anos 40 e 50, esta por sua vez fortemente influenciada pelo conjunto da obra de Le Corbusier. Eu sei que há controvérsias sobre o assunto, mas esta não deixa de ser uma linha de entendimento argumentável. Daí que na música popular, Le Corbusier seria substituído pelos poetas barrocos e pelos concretistas, Caetano assume a função da arquitetura brasileira "heróica" e trabalhos como o de Lenine ou Chico César seriam os hotéis da Flórida ou Las Vegas na virada dos anos 60. Desdobramentos do paralelo deixo ao leitor, mas creio que há pelo menos mais ironia nos hotéis norte-americanos.

A iluminação cênica, que foi sensivelmente melhorada na apresentação do dia seguinte, foi desenhada de uma maneira tal que passei boa parte do show sem poder olhar para o palco, evitando o ofuscamento constante.

O que melhor pude observar foi um descompasso enorme entre o espaço e o show: durante todo o tempo, muitas pessoas se balançavam nas cadeiras, gesticulavam, enfim, queriam dançar – afinal a música apresentada era para isso – e não podiam. O público deve ter saído meio frustrado, ou então não tem muita consciência de corpo, no que começo a acreditar. O artista deveria sentir o mesmo (dois dias antes, no mesmo TCA, e em uma situação mais extrema, Bel do Chiclete havia pedido a platéia para, pelo menos, bater palmas, que ele não estava acostumado ao silêncio; a partir daí o desconforto diminuiu e os chicleteiros foram para casa contentes).

Tenho a sensação, na condição de fã incondicional de Sylvia Telles, que no Brasil dos últimos vinte anos (sim, depois do rock dos anos 80, o ano é mesmo 1988) apenas 2 novos nomes são decisivos: Cássia Eller e Los Hermanos. Carlinhos Brown é provavelmente o único a ser acrescentado a esta lista. Quem esteve lá no teatro para assistir a entrevista do Chiclete com Banana há de concordar.

Um comentário :

Patricia disse...

Márcio.
Você descreveu muito bem o show do Lenine. Aqui em Brasília, a nossa sensação foi pior. Ele foi convidado a fazer um show do Prêmio Rodrigo de Melo Franco (IPHAN), de uma sequencia de músicas conhecidas (assim estava no catálogo do evento) e ele nos informou que aproveitaria a ocasião para 'testar' o show: o som alto, a luz forte, o desconhecimento das letras e a falta das melodias (algumas, gosto muito) deram o tom do show. Mas o pior não foi isto tudo, mas aguentar a tietagem de um público sem educação, que insistia em gritar desesperadamente pelo galã Lenine.