quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Dois motivos pelos quais sou contra leis raciais, ou Feliz Natal para todos


Por ocasião da aprovação na Câmara dos Deputados há poucas semanas da primeira lei brasileira desde 1888 que faz diferença entre cidadãos brasileiros em virtude de sua cor de pele.

1. Pessoal

Eu tinha cinco anos e minha irmã três quando nos tornamos órfãos de pai. Casada havia seis anos, a vida de minha mãe se tornou um pesadelo. Pudemos continuar morando no apartamento confortável de Conjunto Habitacional onde já morávamos, e nós passamos a receber uma pensão alimentícia do Estado correspondente em teoria àquilo que meu pai havia contribuído para a sua aposentadoria. É claro que alguns anos mais tarde, a inflação havia reduzido esta pensão a um valor simbólico. Por mais que minha mãe trabalhasse, e não foi pouco o esforço dela, nós só conseguimos sobreviver com alguma decência à hiperinflação dos anos 80, porque meu pai havia comprado um terreno no Jardim Brasília, em Pernambués, e da venda deste terreno escapamos de, por exemplo, ter perdidas as chances de um futuro profissional com um horizonte mais amplo, pois sem isto, teríamos terminado numa escola pública.

Mas o Estado não queria que eu cursasse a universidade: no ano em que fui admitido em primeiro lugar no vestibular de toda a UFBA eu fazia também 18 anos. Com 18 anos eu perdia automaticamente a pensão alimentícia a que eu tinha direito. Ali o Estado enviava-me uma clara mensagem: você, que é órfão, não receberá nenhum apoio de minha parte em continuar a estudar; a partir de agora, se você quiser se alimentar, vá trabalhar. Como a universidade tampouco concedia qualquer prêmio ou apoio a quem teve as melhores notas entre todos que prestaram o vestibular naquela ano, era claro que se eu quisesse estudar eu teria que me virar.

Graças à minha capacidade intelectual, eu pude além de estudar, dar aulas de matemática e física à noite para estudantes de segundo grau, além, é claro, do estágio de arquitetura à tarde. Estudar mesmo para o curso só pude nos fins de semana. Concluí em seis anos e meio um curso que poderia ter feito em cinco, mas não me queixo. Agradeço à mãe de João, um menino que morava na Vitória, e que foi a primeira pessoa que me confiou a tarefa de ensinar física e matemática ao seu filho. E que me indicou a outras pessoas.

Creio que, à exceção das camadas sociais muito, muito ricas, órfãos tiveram, tem e terão uma dificuldade material muito maior do que qualquer outro que tenha pai e mãe vivos o apoiando em sua formação, seja ele afro-, índio-, europeu-descendente ou mesmo simplesmente brasileiro, seja ele pobre, classe média ou média-alta. Caso alguém tenha interesse realmente em dar apoio a alguém, dê uma olhada no que pode fazer por órfãos, e também pelos filhos de mãe solteira, estas crianças estão efetivamente em desvantagem, uma que caberia ao Estado realmente reparar.


2. Político


"Reconhecemos hoje na Espanha o direito de as pessoas contraírem matrimônio com outras do mesmo sexo. Antes de nós, fizeram-no Bélgica e Holanda, e anteontem o reconheceu o Canadá. Não fomos os primeiros, mas estou seguro que não seremos os últimos. Atrás virão outros muitos países, impulsionados, Senhoras e Senhores, por duas forças que não podem ser contidas, a liberdade e a igualdade."
José Luiz Zapatero, primeiro-ministro espanhol, por ocasião da aprovação da lei no Parlamento daquele país que passou a reconhecer a união civil entre pessoas do mesmo sexo.

O Estado Espanhol, diferente dos demais cordialmente citados por Zapatero, foi efetivamente o primeiro a acabar com diferenças de chances estabelecidas por lei entre seus cidadãos no que diz respeito à matéria em questão. Naquele momento Holanda e Bélgica ainda conservavam restrições a casais do mesmo sexo quanto à adoção de crianças. Em vez de criar instituições jurídicas e uma série infinita de adaptações a milhares de leis, a Espanha mudou uma única frase, redefinindo o casamento como um acordo que, em vez de ser firmado entre homem e mulher, passava a ser entre duas pessoas.

Os princípios de liberdade e igualdade são a base e a medida de leis verdadeiramente sociais. O Estado não deveria por lei estabelecer qualquer desigualdade entre os seus cidadãos. O que pode ser vendido como positivo, se estabelecido a partir de uma desigualdade, será sempre negativo para alguém, como é o caso das cotas raciais. O Estado deveria estar preocupado em cumprir seu dever constitucional de oferecer ensino de qualidade a todos, da creche, passando pela jardim de infância, escolas primárias e secundárias até a universidade. Caso os riquíssimos queiram se separar da grande massa, que a eles seja dada a liberdade de pagar muito, muito caro pelas escolas onde eles cultivem seu desejado isolamento social. Todo o resto da população, creio que uns 90 por cento, apoiaria poder contar com um ensino público de qualidade, em escolas localizadas na vizinhança.

Há que confiar na esperança contida no discurso de Zapatero, que as forças da liberdade e igualdade não podem ser contidas. Especialmente em épocas tão maquiavelicamente contrárias a estas forças.



PS: Esta e a minha avó materna, no seu aniversário de 94 anos na semana passada, para quem por acaso pense que eu não teria direito, caso hoje tivesse 18 anos, às cotas raciais e estaria apenas sendo um racista me queixando. Na verdade, não teria mesmo direito, porque sei que minha mãe teria feito o mesmo esforço para que nós não tivéssemos que estudar em uma escola pública de péssima qualidade, como ela ainda é hoje, principalmente em Salvador.

minha avó, 94 anos




cães

O papa me deixou com tanta raiva que pulei o comentário sobre o lançamento do filme de Moca e Kibe, segunda à noite, dia 22, no novo cinema da cidade, na Praca Castro Alves. Antes do filme, é preciso dizer que é uma grande emocao ver o Guarani-Glauber Rocha reaberto, com um desenho novo muito bom. Um único senao existe no uso do terraco sobre a ladeira da Barroquinha como estacionamento.
A sala lotou, a festa foi muito bonita (a cachaça com picolé nos copos vermelhos foi muito legal), e os aplausos em três ondas nao deixaram dúvida do impacto do filme: nao foi um aplauso fácil, foi um daqueles em que o público revela que ainda está refletindo sobre o que viu, o que é fantástico.
É difícil escrever sobre um filme que se conhece desde o início e de que se tem orgulho de ter de alguma maneira colaborado (ver o nome nos créditos no final é o máximo!). Só posso dizer que a traduçao cinematográfica que os diretores construíram está à altura do desafio assumido frente a uma literatura de tamanho quilate.
Muito bom.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

ÓDIO AO PAPA!

O papa defendeu ontem a idéia de que a homossexualidade levaria o ser humano à auto-destruição. Comparou a idéia de salvar as pessoas do comportamento homossexual à salvação das florestas tropicais.
Isso é para mim espalhar o ódio. Animar as pessoas a tentar "salvar homossexuais" é praticar a intolerância. Seguindo a doutrina básica das grandes religiões - à exce
ção do budismo - o papa retrocede, como sempre, ao cultivar a desconfiança, o medo, o ódio, a vontade de eliminar o outro por ser diferente. Mas quem semeia o ódio não colhe outra coisa, apenas ódio.
Existem duas coisas que me impressionam na Fran
ça: uma é a inscrição "Liberdade Igualdade Fraternidade" nas fachadas dos edifícios públicos. A outra é o conjunto de estátuas de santos e nobres decapitadas ou completamente destruídas em igrejas por todo o país. Pode ser que eu olhe demais para coisas antigas, mas em poucas ocasiões é possível ter a sensação tão evidentemente positiva frente a um testemunho histórico.
É cada vez mais premente a necessidade de um novo Stonewall, ainda que, infelizmente, a sua realiza
ção pareça cada vez menos provável.

domingo, 21 de dezembro de 2008

mais do mesmo

Hoje uma foto do meu álbum no flickr chegou ao número de 200 visualizacoes. Trata-se da foto que fiz em frente à famosa casa de Le Corbusier na Weissenhofsiedlung em Stuttgart, quando por diversao tentei procurar no local o ângulo da famosa foto com o automóvel e a mulher à soleira.
Pelo visto nao somente turistas viajam pelo mundo apenas para confirmar e rever tudo o que já sabiam e haviam visto nos prospectos das agências de viagem. Quem surfa pela internet também só quer ver mais do mesmo.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Música do ano 2008

Minha banda de 2008 é The Daredevil Christopher Wright. É o que de melhor ouvi este ano, a cancao My attempts to grow a beard é o número 01 no playlist do meu mp3. Para além de toda a beleza de melodia e canto, da complexidade estrutural (com sua mudanca inesperada e retorno acertado), bastaria seu título para ser um hit. Ao menos para mim.

ontem fui ao cinema

Assisti a Feliz Natal, primeiro filme de Selton Mello como diretor. Espero que o segundo, caso ele venha a fazer um segundo, seja melhor.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

uma estupidez

havia lido ontem no jornal e hoje pude comprovar no próprio bolso: durante o mês de dezembro, pelo terceiro ano consecutivo, os táxis de Salvador podem rodar com bandeira 2 durante as 24 horas do dia, sob o pretexto de ser uma maneira de eles receberem o 13° salário garantido a empregados de uma maneira geral.
Sugiro que todos os outros profissionais liberais da cidade fa
çam o mesmo: que arquitetos, médicos, dentistas, baianas de acarajé, vendedores de canetas a 1 real no ônibus, engenheiros, fisioterapeutas, manicures que atendem em casa, prostitutas, advogados, músicos, enfim, toda e qualquer pessoa que trabalhe por conta própria, que aumentem em 30% a tarifa cobrada pelo seu serviço no mês de dezembro, o equivalente da diferença entre a bandeira 1 e a 2 na cidade.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Dia Mundial de Luta Contra a AIDS

USE CAMISINHA!

um país sem cantores

Quem ouve um pouquinho de música contemporânea em inglês hoje em dia é forçado a se perguntar porque no Brasil não há cantores. Basta escutar gente como Andrew Bird, bandas como Two Gallants, Fleet Foxes, The Daredevil Christopher Wright ou The Dodos para perceber cantores de alta qualidade.
Faz tempo essa falta, não sei as suas razões.
PS: Seu Jorge talvez seja a exceção que confirme a regra.

música boa

O tanto que a música do paralamas do sucesso nunca conseguiu me agradar, hoje me diverte a música do Vampire Weekend.