domingo, 18 de janeiro de 2009

Verão do samba

"Take advantage of the season..."

Little Joy, Brand new start


Um dia depois da lavagem do Bomfim, fui com Carolina ao ensaio da cantora Mariene de Castro, tomei todas, mas este não é o assunto; ou melhor, apesar de ter tomado todas, pude confirmar o verão do samba (corrijam-me se no verão passado já era assim, mas é que aqui não estive). O som de Mariene é finalmente uma versão pop daquele resgate do samba do Recôncavo que vinha sendo articulado há uns dez anos por alguns músicos que vinham sendo ou de raiz demais, ou jazzísticos demais, ou intelectuais-ligados-ao-chorinho, samba da Lapa demais (daí que nada efetivamente dançante). Mariene acerta na fórmula, provando ao tocar Secos e Molhados. O povo adora.


O espaço onde ela se apresenta é muito arrumado (para usar uma palavra com a intenção da língua falada), e apenas lá entendi um comercial que vi recentemente de um camarote de carnaval que anuncia com orgulho ar condicionado em todos os sanitários. Lá também tem. Ainda que continue achando que apenas isso já seria um despropósito ecológico, tenho que dizer que as instalações onde Mariene se apresenta primam pelo absurdo energético: tudo aberto, com inúmeras máquinas de ar condicionado em sistema split associadas a ventiladores: será que o álcool me ajudou a curtir o som ao me permitir esquecer isto enquanto estava lá? Bem, o serviço é execelente, não havia filas no caixa, nem no bar. E os sanitários são ótimos, grandes e limpos, e têm ar condiconado... (não sei se este têm ainda tem acento)


Mas Carolina, super antenada, já havia me levado a outros dois sambas do verão, o do circo Picolino às terças e o samba das moças aos domingos no Babalotim. Enquanto o som de Mariene está empacotado em um espaço a ser transcrito diretamente para um trio elétrico tocando voltado para um camarote que também tenha ar condicionado nos banheiros (aliás a ideía de camarote é bem estranha ali onde ela tem ensaiado), os outros dois são espaços realmente alternativos. O Circo parece ter a mesma lona do circo Relâmpago, a apresentação no bar acontece na verdade no terreno ao lado, esvaziado de automóveis para a ocasião. Mas não é isso exatamente o que importa – ainda que eu e Carol, a caminho do Rio Vermelho, tenhamos nos divertido muito sobre a dobra deleuziana que seria necessário para que uma banda se apresentasse em um bar cujas mesas ficam na calçada.


O som nos dois lugares é surpreendentemente tradicional e rejuvenescedor. O samba é tocado com ênfase nos instrumentos de harmonia, sem a onipresença da percurssão. O repertório é de clássicos, para todo mundo cantar junto. E todo mundo pode dançar sem nenhum empurrão ou pisada no pé, é tudo elegante, uma experiência reconfortante na cidade. Depois do fim do axé e do pagode – enfim! – esta parece ser a saída lógica – ou mesmo a única que sobra - para a música de carnaval. E a abertura do show de Mariene, a cargo do Ilê Ayê, ficou mesmo com um ar de música para quarentões. Quem é jovem parece estar resgatando os carnavais do Jacu.


Recentemente li num blog (http://ultimobaile.com/) uma crítica ao Samba das moças que tratava o espaço onde elas se apresentam como cacete armado, unindo este aspecto a uma certa resistência do grupo em "sair do gueto". Pois é, na sexta-feira passada fui ao lugar com ar condicionado nos sanitários – o que deve ser bem o não-cacete-armado – e a acústica era péssima, de pior qualidade. Todo o "serviço" era uma espécie de paleativo para uma sonoridade para lá de ruim, realmente inacreditável. Há dinheiro para equipamentos, conta de luz, pessoal, mas não para acústica, e a música é dançável efetivamente só com muita cerveja. No circo e no Babalotim o espaço cacete-armado predomina (mas também não há filas) mas o som, ainda que não seja excelente, é infinitamente melhor. Neste aspecto, o cacete armado ou a cultura de gueto estão à frente no verão do samba. Mesmo porque (tem ou não tem acento?), se os tambores se calaram, é porque saíram muito apressadamente do gueto.

Um comentário :

Roberto Leal Neto disse...

Mais um verão do samba sim, porém muito mais verão... muito mais calor. Gosto do som da Mariene, e desgosto muito do lugar - mesmo erro cometido pelo Cortejo Afro em trocar os espaços tradicionais dos ensaios de verão.

Isso será um começo da capitalização desses artistas ainda tidos como alternativos e com sons de qualidade - ou não.