sábado, 7 de fevereiro de 2009

o terror no monumento

Já virou rotina: a cada sexta-feira, a caminho do ensaio de Mariene, quando a Contorno deixa de ser ladeira, chegando na Cidade Baixa, olhar à direita para ver a iluminação de boite da Igreja da Nossa Senhora da Conceição da Praia. A cada semana, uma surpresa: um dia luz roxa, quase negra, daquelas que permitem ver os ciscos brancos em roupa escura, saindo das janelas; outro dia, como ontem, vermelha incandescente, lavando toda a fachada, quase tremulando, parecendo querer lembrar chamas. Não há outra palavra senão feérica para descrevê-la.

Ao lado, o Elevador Lacerda, modernista e profano, iluminado com seus tons de azul, parece tímido e assume ares aristocratas ao lado da igreja assanhada. Um dia foi chique casar na Conceição, mas agora quem passa e vê aquilo à noite, caso não se atrapalhe e pense que ali funciona o Museu do Ritmo – assim numa alusão às igrejas de Londres transformadas em boites, teatros ou estúdios nas últimas décadas –, só pode imaginar que os novos ricos com seus cerimoniais de gosto duvidoso ganharam o jogo. Contra quem?

Contra a noção de que arquitetura tem algum valor e de que edifícios como a Conceição da Praia, pela sua história como edificação mesmo (não falo aqui do uso) e pelo seu espaço único, têm uma inportância singular para o patrimônio cultural no continente americano. Os tais cerimoniais irão tentar de tudo para sempre ampliar os mecanismos de conferir uma ilusão de glamour a casamentos de gente sem cultura. Sem ter idéia do que já deve ocorrer no interior da igreja, a pergunta é só sobre o limite de permissividade de quem é proprietário ou administra tais edificações: será que teremos alargamento de portas para que carruagens cheguem ao espaço interno da igreja? Ou a substituição de algumas pedras do piso por placas de vidro que abriguem holofotes que se acendam e se apaguem à medida que a noiva caminhe ao altar, assim tipo vídeo de Michael Jackson?

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