sábado, 28 de março de 2009

fritzl e os outros fritzls

Quem acessar agora à tarde a Folha de Sao Paulo verá que Josef Fritzl, o chamado monstro de Amstetten, nao está sozinho: notícias de pais estupradores na Colômbia, na Itália e na Polônia, com filhos-netos em números semelhantes aos do austríaco, acumulam-se em uma seção própria do jornal.

É óbvio que a publicidade alcançada pelo crime cometido na Áustria colaborou para o vir à tona destas outras barbáries. No entanto, o fato em especial de uma pessoa ter sido mantida em um porão sem luz durante 24 anos foi definitivamente entendido como o cúmulo da crueldade e eu mesmo tive que ouvir piadas e comentários sobre possíveis porões da minha residência na Áustria e me vi muitas vezes coagido em defender o coletivo da sociedade austríaca de típicas extrapolações absurdas, daquelas que lidam com a imagem da Áustria como o país de Hitler e que tem o seu equivalente na do Brasil como o país das mulatas de Sargentelli doidas para dar.

Conheço a vida de um povoado na Áustria e, ainda que Amstetten não seja um povoado, os seus 22 mil habitantes não fazem dela nenhuma metrópole. Em cidades pequenas e povoados da Áustria ainda há um senso vivo de vizinhança e comunidade, há muito destruído no Brasil pela violência absurda que permeia as relações sociais. Além disso, austríacos em geral monitoram o tempo inteiro os seus vizinhos para que eles não incomodem o silêncio, tido ali como sagrado, com ruídos por mínimos que sejam.

Os outros Fritzl, na Itália ou na Colômbia, não precisaram construir porões, pelo visto havia uma tolerância coletiva para com o que eles faziam, gente que simplesmente sabia o que acontecia ou fingia não saber. Diante destes novos casos, o porão de Amstetten pode ser visto como talvez a única possibilidade estratégica de execução da bestialidade em uma sociedade que guarda alguma noção de coletivo social. Na Colômbia e na Itália, os mesmos crimes sociais aconteceram diante de uma indiferença e conivência social (de familiares, vizinhos, polícia, etc) provavelmente mais cruel e absurda – em termos da coletividade – do que o porão de Fritzl.

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