domingo, 12 de abril de 2009

O Pruitt-Igoe do pós-modernismo tupiniquim?

Sobre a demolição do Obelisco e passarela de Ipanema


O prefeito do Rio de Janeiro decidiu, a partir do resultado da enquete realizada pelo Jornal do Brasil em sua versão online: passarela e obelisco de Ipanema devem ser demolidos.

Quem acompanhou o jornal durante a última semana foi testemunha de uma série de reportagens que apresentavam argumentos relativos à queda de vendas dos pontos comerciais da área, da falta de privacidade para os vizinhos, dos problemas de orientação no tráfego, mas acima de tudo de caráter estético.

Quando o conjunto habitacional Pruitt-Igoe, localizado em St. Louis, Estados Unidos, foi demolido em 1972, apenas 16 anos depois de ter sido construído, as razões eram de ordem social: crimes e vandalismo o assolavam. Ao menos nos países anglo-saxões, esta data passou a ser usada como o marco do fim do modernismo.

Naquele momento, por menos que pudessem ser evidenciadas filiações, tentava-se enterrar tanto o programa governamental de habitação popular norte-americano como todo o legado vindo da experiência dos grandes e bem sucedidos conjuntos do modernismo dos anos 20 na Europa, no fundo, toda a experiência de arquitetura moderna. Bem, o cenário da arquitetura internacional dos últimos 15 anos indica que o legado do Movimento Moderno está tão vivo quanto nunca. E que o Pruitt-Igoe deveria mesmo ser demolido.

Da mesma maneira que as razões para a demolição do problemático conjunto habitacional eram de ordem social, as que justificam a demolição do obelisco e passarela de Ipanema são acertadamente de ordem estética. É chegada a hora de nos livrarmos em todo o país desta idéia de que cabe ao arquiteto distribuir enfeites sobre as fachadas das construções ou pórticos, traves, qualquer coisa que saia do plano do chão sobre as praças e jardins, com ou sem argumentos (pseudo-)históricos.

E se há pouco no Pruitt-Igoe da arquitetura moderna dos anos 20 europeus, há tão pouco, ou talvez menos até, do trabalho de Robert Venturi ou Aldo Rossi em quase tudo aquilo que no Brasil recebeu o rótulo de pós-moderno: frontões e colunas de gesso aplicados sobre edifícios de apartamentos, shopping centers ou igrejas neo-petencostais, ruínas inventadas, pórticos e traves em praças públicas e jardins, para os quais ninguém nunca conseguiu perceber alguma utilidade prática. Tudo mais ou menos de mau gosto.

Em Salvador abundam exemplos: a Praça da Inglaterra, com suas vigas de concreto pesadíssimas, o jardim dos namorados na orla, com seu Stonehenge multicolorido, a Praça Jardim da Pituba, com sua sequência de traves tortas, e outras versões menos robustas no Largo do Papagaio e na Madragoa. Mas creio que tudo isso não tenha o impacto negativo dos absurdos passarela e obelisco de Ipanema, que felizmente deixarão de tornar feio o bairro 13 anos após terem sido erguidos.

Que este debate, aberto pelo Jornal do Brasil, se estenda por todo o país e que o fim da passarela e obelisco de Ipanema se tornem um marco nosso, tupiniquim. Estamos precisando. Por razões de ordem estética.

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