domingo, 23 de agosto de 2009

DorminGo

Quem ainda for esta semana ao palacete das artes verá várias exposições de fotografias: talvez a curadoria insista em perceber uma continuidade no que está ali exposto em um único espaço, mas a primeira impressão é de que as fotografias contemporâneas poderiam estar mais separadas espacialmente das outras - de Voltaire Fraga e dos franceses - porque os pontos em comum são mínimos ou quase não há.
Ainda que as fotos de Verger, Gautherot, Manzon e Levi-Strauss não precisem de nenhum comentário (a sequência de fotos com as velas no chão na Amazônia e a foto do(a) mascarado(a) no carnaval são magistrais!), elas acabam funcionando como uma boa moldura para as obras de Fraga (que moldura!!!).
As fotos de Voltaire Fraga sao emocionantes, no sentido mais melancólico-nostálgico que a fotografia pode ser. Ali estão os populares bem vestidos com poeira no sapato dos anos 40 e 50, a Bahia que conhecemos através de Verger, os trilhos de bonde, o centro da cidade enquanto tal, cajus em cestinhas de palha, baianas do acarajé em contraste com o Oceania, vários edifícios que não estão mais de pé. Abundante Bahia, o título da exposição, começa a assumir um tom bastante irônico.
A foto mais bonita, e que talvez seja o retrato da Bahia que permanece no tempo, é aquela noturna, da rua Chile, com os neons das casas comerciais. O fantasma do bonde, o glamour chifrim da rua que atraía multidoes para usar a primeira escada rolante da cidade. Ali, Salvador parece sintetizada em todo seu imutável provincialismo (diferente e distante das fotos que mostram a lavagem do Bomfim, as festas de largo ou os vendedores dos cajus).
Interessante mesmo é ver o fotógrafo dormingo na cadeira de praia (o erro da legenda que sintetiza dormindo com domingo), a balaustrada do porto da barra e o pé ligeiramente inclinado do fotógrafo todo de branco às margens do dique. Todo de branco, até o sapato.

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