quinta-feira, 10 de setembro de 2009

arquitetura (?) e publicidade, e uma mulher de braços cruzados

quem atualmente passa pela orla de Salvador, no sentido Itapoã, vê à sua mão esquerda, logo depois do largo de Amaralina - onde baianas insistem em vender acarajés sob coberturas improvisadas e escondidas por um placa da prefeitura - um imenso outdoor triplo que anuncia um empreendimento imobiliário, cuja campanha está bastante presente em todas as mídias locais.
Este será o primeiro edifício com mais de 6 andares nas quadras próximas à praia no bairro da Pituba. A peça gráfica porém é desconcertante: do lado esquerdo, uma foto da praça nossa senhora da luz, em dia de sol: uma área aberta, de lazer, ainda que gradeada, próximo ao endereço do futuro edifício. Do lado direito, uma fotomontagem onde se vê uma imagem em perspectiva do edifício inserida em uma foto do sítio, enfatizando a vizinhança da praia, de novo, exuberantemente ensolarada.
No centro, no entanto, uma mulher de cara fechada e braços cruzados, vestida de preto, com mangas compridas e gola alta, algo que parece mesmo um pulover. Intuitivamente, associamos as outras duas imagens a alguém em roupa de banho ou de esporte. A primeira pergunta que vem à cabeça, bem ingênua, é: se quem vai morar neste prédio, veste-se assim, porque escolher este endereço? Isso porque com o sol todo das fotos, nao dá pra sair na rua assim, menos ainda ir ali caminhar na praia.
A pergunta é ingênua porque quem conhece esta cidade sabe que os moradores da Pituba não usam o espaço público do bairro e não parecem nem um pouco interessados em cuidar dele. Qualquer domingo, qualquer feriado, quem passa por aquele trecho da orla verá uma imensa massa construída de edifícios habitacionais e uma praia deserta. É uma imagem surreal (considerando como real Copacabana, Ipanema, Boa Viagem, etc). Eu sei, a praia da Pituba é poluída. Mas nestes anos todos nunca ouvi falar de um movimento dos moradores do bairro para salvá-la.
A mulher de preto do outdoor parece assim bem inserida no bairro: a praia, a praça, as calçadas, tudo está ali como um desperdício, porque são muito pouco usadas por quem ali mora. Toda de preto e de gola alta, de garagem em garagem, a mulher do outdoor está verdadeiramente apta a ir morar na Pituba, de frente para o mar. E afirmar e consolidar a ausência de urbanidade de Salvador.

2 comentários :

Au3 disse...

Márcio,

De fato a ironia da propaganda enfatiza a falta de relação do empreendimento com o entorno, mas a idéia difundida e defendida pelos publicitários é de que o modo de vida paulistano de trabalho e seriedade atrai mais compradores.
Sabemos também que desde sua reforma, o objetivo era que a Manoel Dias se tornasse uma espécie de Champs-Élysées (sem sombra) dos baianos, mas desde que lojas como Insinuante, Ricardo e agora Casas Bahia se instalaram no local o plano veio por água abaixo, porém a maioria ainda não percebeu que a Manoel Dias está seguindo o mesmo caminho da Avenida Sete (sem a qualidade de sua arquitetura) onde já é possível notar lojas da marca "Camelots" e prostitutas à noite.
Quanto à "ausência de urbanidade”, devo discordar, pois a Pituba é um dos únicos bairros de Salvador que apresenta as características de cidade defendida por Jane Jacobs. Com usos diversificados e vida intensa, apesar das grades, ainda conseguimos caminhar à noite sabendo que estamos sendo vistos por porteiros, moradores e trabalhadoras noturnas (prostitutas).

Alan Quintella Mendes

drmukti disse...

Pois e, Alan, eu insisto na ausencia de urbanidade, que atinge toda a cidade. Refiro-me a Copacabana, Ipenama como referencias, onde o bairro e realmente usado por quem ali mora, incluindo a praia. Creio que a maioria da populacao da Pituba faz suas compras nos shoppings e nao usa a praia. Isso e dificil de ser contestado.
Forte Abraco!
PS bastaria que a Manoel Dias virasse uma Nossa Senhora de Copacabana com menos onibus! E o que ela tem hoje e somente os onibus!!!!!!!