sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

sobre o ser caipira

Estive em Londres já faz algum tempo, marcamos eu e Ana de Lourdes uma visita a Anete e Paeta em um fim-de-semana de fevereiro. Eu saí de Viena, ela, de Barcelona, e como chegamos em aeroportos diferentes praticamente na mesma hora, Anete combinou de ir ao aeroporto receber Ana e em seguida ir até a estação de Waterloo no centro de Londres para me encontrar. Ao descer do trem sozinho em Waterloo, recém-inaugurada com sua cobertura high-tech assimétrica, tive a grata surpresa de ver escrito não somente em inglês, mas também em francês e alemão a indicação de saída. Não que eu não conhecesse a palavra Exit, mas para quem estava naquele momento aprendendo alemão, ler (e entender) Ausgang na placa de informação era como uma pequena confirmação positiva do árduo aprendizado da língua.
Eu não contava com isso, porque intuitivamente achava que se em algum lugar as pessoas não se preocupassem com informação pública em outras línguas, então este lugar seria ou a Inglaterra ou os Estados Unidos. Ainda era a primeira metade dos anos 90 e ninguém pensava nem em sonho em aprender mandarim considerando-a como a língua franca de um futuro próximo e para mim era um primeiro aprendizado de quão cosmopolita uma cidade pode ser (eu ainda estava começando a conhecer a Europa).
Nas ruas de Londres me senti em casa: o número de negros me fazia lembrar Salvador, afinal naquele momento provavelmente não viviam mais do que 5 ou 10 negros em toda Viena (algo que mudou muito nos últimos anos). Mas, mais do que isso, aos meus olhos Londres transpirava aquilo que faz da cidade o centro da cultura pop em música, arte, moda, ao menos desde os anos 60: abertura, comunicação, diferenças. Foram só alguns dias, e é claro que Anete havia elaborado uma programação ótima, e Londres confirmava para mim uma série de expectativas positivas (outras não, como o metrô).
Alguns anos mais tarde, no final do verão chegava à Catalunha de bicicleta, vindo da França. A paisagem no lado espanhol era seca e as únicas folhas verdes eram dos olivais, cuja cor quase prateada faz lembrar, naquele calor todo, o sertão. Além da cor da paisagem, era notável também a diferença de padrão material de vida entre o interior da França e o da Espanha, algo que hoje, mais de dez anos depois, já deve ter diminuído. Os pequenos povoados, de arquitetura histórica emocionante não deixavam esconder uma certa tristeza no ar, que diminuía à medida que a costa se aproxima.
Antes da costa, a primeira cidade de porte médio em que estivemos foi Lérida. Chegamos na hora estendida do almoço espanhol e não havia ninguém no posto de informação turística. E esta foi praticamente a única informação que se podia obter ali: tudo ali, tudo mesmo, estava escrito em catalão, uma língua na qual mesmo os nomes dos dias da semana não têm muita semelhança com português ou espanhol. E assim era o resto da cidade.
Barcelona deixou a impressão de viver sob o mesmo lema, apenas um tanto disfarçado pelo tamanho da cidade e pelo número de turistas. Provavelmente o turismo colabora muito para certo grau de caipirice, até mesmo um ressurgimento da mesma, algo que acontece com uma intensidade inversamente proporcional ao tamanho das cidades. O fenômeno da extrema-direita européia também pode ser lido como algo bem jeca: com toda a projeção internacional que teve, Haider sempre permaneceu um político de província. E é possível até mesmo interpretar as obras das Olimpíadas de 92 em Barcelona e o Guggenheim em Bilbao como esforços contra esta noção caipira que está no centro do pensamento de quem é orgulhoso demais de suas origens e o lugar onde nasceu: tem coisa pior do que aquele adesivo nos carros “Orgulho de ser nordestino”? Este orgulho exagerado parece ser quase sempre uma expressão de inferioridade interiorizada.
Em Barcelona presenciei catalães que conversavam conosco em espanhol, mas que se dirigiam aos garçons, andaluzes, em catalão, para demonstrar hierarquia e dificultar a comunicação. Um dos lemas mais famosos da extrema-direita para uma eleição em Viena era “Viena não pode virar Chicago!”: ao proclamarem isso, Viena se aproximava provavelmente de Belgrado ou Zagreb. Mas até hoje a cidade resiste, consciente de sua história de grande metrópole de um império passado, sim, cosmopolita. A Áustria já é outra história.
“Só se vê na Bahia” é outro irmão desses slogans propagandísticos: ao escutá-lo penso na taxa de desemprego, nos índices de violência, no ausente sistema de transporte público, como muita gente deve fazê-lo. Nos últimos 30 anos Salvador vem se esforçando em virar Feira de Santana do litoral. Logo será Jequié ou Barreiras a meta a ser cumprida: ao menos tão quente quanto!
Ser caipira envolve esta condição de achar que não é necessário olhar para além do vale dos Alpes onde se nasceu, de achar que o mundo inteiro tem que falar catalão para se comunicar com a Catalunha, de achar que a Bahia é o melhor lugar do mundo sem nunca ter saído dela. Uma certa falta de generosidade.

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