sábado, 29 de maio de 2010

lost in the reforma ortográfica

quanto mais eu leio jornais escritos de acordo com a reforma ortográfica, naturalmente me sinto mais inseguro com o que escrevo. Ultimamente, dei para achar todo acento circunflexo supérfulo. Outro dia, conversando com Breno pelo twitter, expressei nostalgia pelo acento agudo em ditongo decrescente oral aberto.
Cada vez mais me sinto como Bill Murray no filme de Sofia Copolla diante de uma frase escrita (a melhor parte, do Japao ser aqui, ou de eu estar no Japao, é claro que nao vem); vai chegando uma sensacao de solo instável, um torpor anestesiante diante da língua, um estranhamento pequeno, sutil, mas que deixa a dúvida de talvez estar escrevendo em língua estrangeira. Até comprei um livro muito bom sobre a reforma, mas com esse jeito bom de garantir distancia da realidade, acho que nao vou incorporar esta reforma nunca.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

mais uma foto premiada!

Depois de ter uma foto premiada pelo plataformaarquitectura e outra selecionada pelo blog archidose, agora foi a vez do archdaily (!!!)(www.archdaily.com) a escolher uma foto minha, outra foto do super fotogênico Brandhorst Museum em Munique, como uma das melhores ali publicadas! super contente!
o link para a matéria:
http://www.archdaily.com/62117/ad-round-up-best-from-flickr-part-xi/

quarta-feira, 26 de maio de 2010

comida deprê

Ir ao McDonald's tem sempre algo de deprimente. Mundo afora é algo mais ou menos constante: a horda de pessoas que escolheram nao usar o garfo e a faca para comer, os pobres jovens trabalhadores com o retrato do melhor do mês que sempre parece o retrato da "lobotomia do mês", o espaco mais ou menos desarrumado, a cozinha semi-"à mostra". Na Bahia, o grau de depressao é mais forte, mas os motivos sao completamente distintos, e bem locais: o servico mais lento que você imagine, a música ambiente péssima e muito, muito alta, e por conta disso as criancas gritando (e há mais criancas no McDonalds por aqui), um certo grupo de pessoas orgulhosas por nao estarem comendo com garfo e faca (eu ainda nao sei por que razoes este orgulho), as impressoes nas paredes que mostram as fachadas do pelourinho caindo vertiginosamente para trás e ainda mais coloridas (sim, é possível) e a batata frita um tanto mais salgada; eu digo menu, eles sempre me corrigem para "promocao?" Ja nao tenho dúvidas, se entro ali é porque alguma coisa está pegando.

terça-feira, 25 de maio de 2010

república do tênis novo, parte 1

Hoje pela manha ouvi na rádio que o presidente do país assinou uma lei que torna obrigatória a instalacao de biblioteca em todas as escolas e instituicoes de ensino do país. A mesma notícia informava que hoje em apenas 30% delas há uma biblioteca. A república do tênis novo estipulou que cada biblioteca deve ter um acervo de no mínimo 1 exemplar para cada estudante. Estranha, porque tao mínima, esta relacao numérica.
Mas o que mais me fascina, de uma maneira pavorosa, é claro, é que foram necessários quase 8 anos para que o governo percebesse a importância de escolas possuírem bibliotecas. Acho que nao é necessário escrever mais nada.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

das razoes nao ditas de um duplo assassinato

A imprensa nacional noticiou hoje o caso dos vizinhos em Sao Paulo que se mataram em uma briga cujo motivo foi o local de depósito do lixo. Alguns experts apareceram na TV pedindo mais cabeca fria da populacao e o controle de armas. Tudo bem, isso pode ate contribuir para evitar mortes estúpidas como estas. Mas a principal razao está sem dúvida na vida em monstruosas densidades populacionais, onde as pessoas nao tem direito a nenhuma área livre, a nenhuma privacidade, a nenhuma área de lazer. As imagens da rua onde isso tudo aconteceu em Sao Paulo revelam bem a situacao: casas com puxadinhos até onde o vizinho nao foi, calcadas estreitíssimas, completa falta de infra-estrutura.
As mortes sao apenas uma mínima ponta do iceberg do desconforto de quem mora tao apinhado uns sobre os outros, como nas cidades brasileiras: ruídos, odores, lixo, privacidade, caprichos, manias, individualidades, tudo que deveria acontecer de maneira privada é forçosa e violentamente (como nao há alternativa, pois nao há infra-estrutura) compartilhado, esmiuçado, tornado público. No país do grande sucesso do BigBrother, que assim visto funciona como uma celebracao dupla do cotidiano nacional, um vizinho resolveu mandar o outro pro paredao: ele só nao percebeu que naquela noite mais de um poderia ser eliminado pelo público.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

à mesa com a diplomacia brasileira

Na Europa Central todas - todas mesmo - as pessoas usam o garfo na mao esquerda e a faca na mao direita; em um simples almoco familiar, onde so estejam pai, mae e os filhos, ou em um simples almoco cotidiano de colegas de trabalho, ninguem inicia a refeicao antes de todos terem seus pratos diante de si, sentados à mesa, e o mesmo vale para a bebida, no mais simples barzinho: quem está à mesa aguarda que todos tenham sido servidos para poder comecar a beber. Logo percebi que neste momento, as pessoas estao nao so respeitando o outro, como através disso, celebrando o ato de estarem juntas, ali naquele momento reunidas. Sao regras sociais comunissimas, nao estou descrevendo nenhum cerimonial para jantares com a rainha da Inglaterra.
No Brasil, há outras regras, ou eu me arrisco a dizer que nao há uma nocao de regras tao claras para isso: qualquer um que frequente a praca de alimentacao em um shopping da antiga classe média (nao falo da nova classe média) vai poder observar que provavelmente a maioria das pessoas come com o garfo à mao direita; mesmo em um jantar para convidados nao tao proximos, nao há um momento claro do servir-se, e ninguem espera muito o outro para comecar a comer, alem do que, muitas vezes nem há lugar à mesa para todos os convidados (o que fica entendido como espontaneidade de sentar ao sofá com o prato apoiado nas pernas); as pessoas brindam seus tin-tins, mas muitos já beberam o primeiro ou o segundo gole ao fazerem. Aqui vale um individualismo sem fim, que so desaparece na hora da conta: ali há sempre a chance de algum Gerson ter seu uisque pago por quem só bebeu água mineral a noite toda. Estes sao, assim por dizer, comportamentos comunissimos no Brasil.
O comportamento da diplomacia brasileira nos ultimos anos no cenário internacional é o de quem está presente num jantar formal, mas se comporta como se estivesse no churrasco da laje em um domingo de futebol. Para cada um há um código de comportamentos, e há de ser esperto para observar e aprender como as pessoas se comportam em cada situacao. Mas no fundo é assim: o garfo e a faca, quando elaborados em design e comportamento através dos tempos, foram consolidados para serem usados respectivamente para a mao esquerda e para a direita. Voce pode discordar, mas há que apresentar algo melhor. Nao da para ficar sendo filmado de paletó aberto todo o tempo, com a cara de esbaforido, em gestos patéticos de celebracao que só sao compreendidos no Brasil. Pega leve, Brasil, preste atencao no guardanapo.

terça-feira, 18 de maio de 2010

muito tarde para sambar

Fazia muito tempo, já antes das férias de natal, que estávamos ensaiando às tercas-feiras. Por isso, nao tinha idéia que o horário do Samba da Gamboa tinha sido alterado para as 23 horas, o que constatei faz exatamente 45 minutos (esta semana ensaiamos na segunda e amanha, quarta). Ficou tarde demais para o programa de Diogo Nogueira, uma pena. Mas pelo visto, em época de eleicoes, futebol é mesmo o que há, nem o samba consegue competir. Um programa sem baixaria, sem tiro e assassinato, sem falar mal dos outros, sem putas ou crentes, nao tem mesmo lugar na TV brasileira em 2010.

jejum encerrado

A última vez que eu havia ido ao cinema ainda era dezembro... neste fim-de-semana fui duas vezes: no sábado assisti ao filme de Tom Ford, com o impronunciável e impossível de ser escrito título de novela da seis com Lauro Corona e Glória Pires, que resolveram aplicar ao filme aqui no Brasil. No domingo, assisti a um outro caso de título absurdo em terras brasileiras, o filme israelense que se chama originalmente eye wide open e trata de um amor homossexual na comunidade ortodoxa de Jerusalém. Queríamos ir ao teatro, mas a peca foi cancelada (Breno ainda reclama). O filme de Israel é super classico, com aquele formato de filme em lingua estrangeira para concorrer ao oscar, com uma narrativa muito conservadora. Destaque para o tratamento da imagem sem sombra, o que nao deixa de gerar um estanhamento interessante, e para a insercao dramática da sombra. O tema é tratado da maneira mais pesada possível, e no fim a única mensagem que o filme traz é que religiao nao faz bem a ninguém. Achei pouca coisa para um filme. Mas os atores eram bons.
Já o de Tom Ford me fez sair da sala do cimena pensando: wenn ich eine Frau wäre, dann würde ich gern Julianne Moore sein. Sonia Dias me perdoe. Mas Tom Ford a fotografa assim como Almodovar o fez com Penélope Cruz no seu último filme: esta é a grande razao de elas estarem em cena. Só que Julianne Moore nao precisa de comentários e nem de fotografia. Aliás, o filme tem uma sequencia explícita de homenagem a Almodovar (a citacao de Todo sobre mi madre abrindo para a entrada de um personagem vindo de Madrid para Los Angeles), mas Celsinho me disse que o filme inteiro é sobre Almodovar. Concordei.
Gostei do filme, embora eu tivesse ficado com uma ligeira sensacao de que a ideia de filmar este texto e o filme propriamente dito estariam mais adequados há uns dez anos atrás. Colin Firth tem uma atuacao brilhante, um carro lindo e uma casa fantástica. Radiohead citado também. E muito band-aid (isto eu nao entendi exatamente, aceitei como fetiche). Um filme a ser visto, um programa bom para o sábado chuvoso que foi. Depois cortei o cabelo.