quarta-feira, 19 de maio de 2010

à mesa com a diplomacia brasileira

Na Europa Central todas - todas mesmo - as pessoas usam o garfo na mao esquerda e a faca na mao direita; em um simples almoco familiar, onde so estejam pai, mae e os filhos, ou em um simples almoco cotidiano de colegas de trabalho, ninguem inicia a refeicao antes de todos terem seus pratos diante de si, sentados à mesa, e o mesmo vale para a bebida, no mais simples barzinho: quem está à mesa aguarda que todos tenham sido servidos para poder comecar a beber. Logo percebi que neste momento, as pessoas estao nao so respeitando o outro, como através disso, celebrando o ato de estarem juntas, ali naquele momento reunidas. Sao regras sociais comunissimas, nao estou descrevendo nenhum cerimonial para jantares com a rainha da Inglaterra.
No Brasil, há outras regras, ou eu me arrisco a dizer que nao há uma nocao de regras tao claras para isso: qualquer um que frequente a praca de alimentacao em um shopping da antiga classe média (nao falo da nova classe média) vai poder observar que provavelmente a maioria das pessoas come com o garfo à mao direita; mesmo em um jantar para convidados nao tao proximos, nao há um momento claro do servir-se, e ninguem espera muito o outro para comecar a comer, alem do que, muitas vezes nem há lugar à mesa para todos os convidados (o que fica entendido como espontaneidade de sentar ao sofá com o prato apoiado nas pernas); as pessoas brindam seus tin-tins, mas muitos já beberam o primeiro ou o segundo gole ao fazerem. Aqui vale um individualismo sem fim, que so desaparece na hora da conta: ali há sempre a chance de algum Gerson ter seu uisque pago por quem só bebeu água mineral a noite toda. Estes sao, assim por dizer, comportamentos comunissimos no Brasil.
O comportamento da diplomacia brasileira nos ultimos anos no cenário internacional é o de quem está presente num jantar formal, mas se comporta como se estivesse no churrasco da laje em um domingo de futebol. Para cada um há um código de comportamentos, e há de ser esperto para observar e aprender como as pessoas se comportam em cada situacao. Mas no fundo é assim: o garfo e a faca, quando elaborados em design e comportamento através dos tempos, foram consolidados para serem usados respectivamente para a mao esquerda e para a direita. Voce pode discordar, mas há que apresentar algo melhor. Nao da para ficar sendo filmado de paletó aberto todo o tempo, com a cara de esbaforido, em gestos patéticos de celebracao que só sao compreendidos no Brasil. Pega leve, Brasil, preste atencao no guardanapo.

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