sexta-feira, 4 de junho de 2010

O danúbio que nao é azul também deságua no mar

É difícil dissociar a imagem de Viena da valsa escrita em 1866 por Johann Strauss, o segundo, An der schönen blauen Donau, em portugues simplesmente O Danúbio azul. A ela está associada toda a Viena da segunda metade do século XIX, da arquitetura historicista e monumental da Ringstrasse, os grandes bailes das últimas décadas da aristocracia e, por extensao, toda a cultura vinda de outros séculos e armazenada pelos Habsburgos, mais conhecida do turista em geral através das inúmeras igrejas e palácios barrocos espalhadas pela cidade. O Danúbio azul é, por assim dizer, a trilha sonora absoluta do turista básico que passa umas 48 horas pela cidade olhando os pontos turísticos elementares.
Entre o fim da Primeira Guerra Mundial e o início dos anos 30, quando em uma guerra civil os austro-facistas chegaram ao poder, Viena passou porém por uma grande transformacao de gestao e cultura sob o governo do partido socialista, período conhecido como Viena Vermelha. Para quem nao é turista básico, um passeio por qualquer bairro da cidade irá revelar a principal heranca desta época: os grandes Höfe, ou blocos de apartamentos para a classe operária. O maior deles, o Karl-Marx-Hof tem 1 quilômetro de extensao. As milhares de unidades habitacionais, construídas em parte em sistema de mutirao, contavam e ainda contam com lavanderia comunitária, jardim de infancia, biblioteca, escola, jardins e uma insercao urbana excelente do ponto de vista dos transportes e toda a infra-estrutura em geral. A qualidade destas habitacoes, hoje, quase 100 anos depois, ainda é impressionante, especialmente se pensarmos na quantidade realizada em pouco mais de 13 anos.
Bem, faz alguns dias o governo do Estado da Bahia lancou na TV mais uma de suas inúmeras propagandas, onde, ao som do Danúbio Azul, sao alardeadas em uma sequencia animada por pessoas muito sorridentes, as suas realizacoes, entre elas e repetidamente imagens de casinhas feitas para pobres, mais ou menos naquele padrao inferior a básico que conhecemos de uns trinta ou quarenta anos atrás: porta e janela, telhado duas águas, um apinhado de casas enfileiradas esperando a favelizacao. Eu nao consegui ainda perceber que ligacao há com a trilha sonora: porque e como a valsa de Strauss serve de pano de fundo para aquilo tudo? Alguem no governo, e na agencia de publicidade, acha que a melodia mais vulgar entre todas as valsas vienenses - por si só, um gênero nao tao cultuado - dá algum ar de nobreza, solenidade ou importância àquilo que está sendo mostrado? Acham que só a música e a publicidade já basta para isso? Mas como conferir tais qualidades a tais casinhas?
A publicidade do governo da Bahia parece ver a realidade como um turista básico vai conhecer Viena, tudo lindo, tudo imperial, tudo barroco, uma orquestra com músicos vestidos de Mozart executando o Danúbio Azul. Nem precisa ir ver o Danúbio, que nao atravessa o centro da cidade mesmo. E mostra que ela nada percebe ou compreende do que é necessário ser feito em termos de arquitetura para a populacao, porque se vangloriar do que é mostrado, é de sofrer.
Mas talvez eles apenas tenham ficado na dúvida de que trilha sonora escolher: um jingle como o do ex-governador de três letras eles nao emplacaram; Na Baixa dos Sapateiros ninguém mais conhece, Sao Salvador de Caymmi também nao funciona mais; o resto é axé ou pagode. Tinha Camisa de Venus, com Controle Total, mas aí já nao dá, né?

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