segunda-feira, 4 de outubro de 2010

o primeiro dia do fim da república do tênis novo ao tanquinho

O atual governo foi eleito prometendo a cada brasileiro a chance de possuir um tênis novo. Lembro-me como hoje da primeira vez que escutei a propaganda política no rádio, onde uma voz jovem masculina proclamava de maneira extremamente engajada a necessidade a ser satisfeita de ter um tênis novo.
Além do tom entre política estudantil e pastor protestante com megafone na mão em praça pública, o que era bem assustador, estranhei a idéia do tênis novo: tinha que pensar naqueles tênis bem brancos que os mauricinhos e patricinhas dos anos 80 usavam para fazer aeróbica, algo muito, muito cafona (isso foi muito antes do revival dos anos 80 de uns 2 anos pra cá). Era como se o grunge nunca tivesse existido ou o Nirvana nunca tivesse estado no Brasil. A noção do tênis novo era acima de tudo desprovida de qualquer senso estético.
Mas isso não era tudo, é claro. Eu não conseguia entender à época como a propaganda de um partido dito de esquerda podia investir simbolicamente em algo tão burguês, no fetiche do consumo, e de algo tão assustadoramente feio. Isso o mensalão, o BF e a falta de investimento em educação vieram explicar depois.
Mas o governo hoje pode ser orgulhoso de além de um tênis novo branquinho ser também o patrocinador através da suspensão dos impostos de um eletrodoméstico tipicamente nacional (talvez exista na China ou Índia também, não sei nem quero saber), que é o tanquinho. Um tanquinho instalado num apartamento vagabundo do minha casa, minha vida (lá dele): esta é a nova classe média.
O tanquinho não existe na Europa; aliás, a maioria das máquinas de lavar à venda no Brasil, com tampa superior e tambor com eixo vertical, quase não se vêem por lá. Lá as pessoas têm máquinas com eixo horizontal, eletrodoméstico para poucos por aqui. O tanquinho do Brasil de Lula é como aquele carro indiano que foi anunciado como o mais barato do mundo: apenas que para seguir as normas de segurança vigentes na Europa e pagar os impostos devidos, ele sairia mais caro que os modelos mais baratos já no mercado.
Desconfio que a chamada maior conquista do governo Lula seja uma invenção: a nova classe média: um grupo que acha que comprando um tanquinho e morando no minha casa, minha vida (lá dele), resolve-se a vida. De tênis novo no pé. Comprar, comprar, comprar. Só isso. E sonhar com o carro indiano.

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