domingo, 24 de outubro de 2010

WER BIN ICH? ou o 1° dia do FIAC-BA 2010

wir wissen dass es etwas dahinter gibt; und dazwischen. O espetáculo de dança e teatro Tim Acy, da artista Antje Pfundtner, repete várias vezes a pergunta-título deste comentário (Quem sou eu?) mas abre avisando que há algo por trás, há algo para além do palco, daquela encenação.
Se a moldura do espetáculo posta na sua abertura é a da ampliação, da conexão para o mundo de fora, a do encerramento é a do efeito do duplo, do clone imperfeito, que de novo e de uma outra maneira, suave agora, pergunta Quem eu sou?
Da mesma maneira que as molduras estão claramente evidenciadas, o espetáculo é preciso, rico e deslumbrante na variação rítmica, formal e cênica, ao mesmo tempo que mantêm um fio condutor claro apoiado na coreografia. O seu exercício é radicalmente moderno e formal, durante o espetáculo eu pensava: ocidental, e que ótimo!
Pfundtner dá um show de interpretação e dança (e é tão importante não separá-los!), destaque para o sentar-se sobre a mesa e o bicho-papão-de-pelúcia.
Objetos, figurino, instrumentos musicais, cenografia não estão a serviço de uma pergunta simples sobre superficialidades. Moderno que é, o público não pode esperar respostas: é o público quem as dá, num frenético questionário de sim ou não. Alguma semelhança?
Sim, o eu que se pergunta quem sou eu em Tim Acy pode ser um macaco que passeia pelo universo de Jeff Koons. O sujeito no universo de consumo, aquele glorificado pela nossa política, esta mesma do sim ou não daqui a uma semana. Ainda neverá por muito tempo.
Extasiado com Tim Acy e por isso com um certo receio, nos dirigimos à Escola de Teatro para assistir à peça Comida Alemana, texto de Thomas Bernhard e encenada por um grupo chileno (e isso porque Fábio tinha comprado o ingresso e não foi e herdei o seu ingresso). Grata surpresa, depois da abertura com os atores cantando Erlkönig de Schubert, o texto permaneceu em alemão, como antes na sala do coro.
De novo, uma encenação excelente, com uma direção segura e expressiva, com atores em um desempenho coletivo e individual tão destacados quanto primorosos, inclusive cantando os Lieder de Schubert!, sem esquecer que eles estavam interpretando em alemão!
A compressão espacial é o centro da interpretação do texto, daí o exercício fantástico da direção de atores, como chamou a atenção Celso Jr. A opção por manter o texto em original é a outra - luxuosa - decisão da direção, que marca o espetáculo: o contínuo com o texto dos Lieder e a manutenção da força expressiva do jogo retórico através da repetição e ritmo que marca a obra do maior dramaturgo de língua alemã garantem a teatralidade tão distante daquilo que é o mais comum na cena teatral local. Gostei muito!
A abertura do fiac não poderia ser mais felizmente diversa daquela do ano passado; há um ano atrás, depois daquela peça de choques fakes e texto horrível, eu havia jurado ficar muito tempo longe do teatro. Ontem saí do Canela-Campo Grande me perguntando com que coragem um festival é aberto com duas encenaçoes de nível tão alto, tão excelentes. Tomara que continue assim!

Um comentário :

Fábio disse...

Tudo o que vi ano passado me impressionou muito, exceto a tal peça dos choques, que era ridícula.
Temos pela frente alguns dias de boas encenações.