quinta-feira, 3 de março de 2011

a violência como regra do jogo social

como vejo as coisas (sim, não sou sociólogo nem antropólogo): creio que herdamos, entre tantas, duas características estruturais dos nossos colonizadores ibéricos: um certo desprezo por tudo que é público (o xixi na rua como ícone) e a desconfiança como relação fundamental entre as pessoas e entre o estado e os cidadãos (a cultura da fotocópia autenticada).
Por aqui, em terras americanas, a violência foi acrescentada, e atua como expressão do irracional numa sociedade por demais pragmática, funcional (aquela que foi estabelecida com a exclusiva finalidade comercial). Aquela arquitetura super elementar de três vãos de porta iguais que é recorrente na chapada diamantina ou em minas gerais completa-se com a exploração dos escravos e o extermínio dos índios.
A violência é uma das nossas (significando aqui nós, os brasileiros) expressoes do irracional mais fortes e disseminadas: através dela nos relacionamos com frequência com o outro. Tão forte que nos grandes centros urbanos - que só surgiram por aqui em meados do século XX e que são um agravante de muita coisa em função simplesmente da densidade populacional - a violência tende a eliminar o convívio social: quem pode, estabelece a grade como separação, elemento cuja eficácia é condição mais que elementar para a moradia, trabalho e diversão da classe média.
Mas de vez em quando a classe média brasileira tenta ir conhecer o mundo lá fora, ver "a vida como ela é" e sai das suas blindagens, muitas vezes sem nenhum preparo para a coisa. E também sem nenhuma informação sobre a coisa. Na maioria das vezes caem no espaço sem lei criado por eles mesmos para os outros, o espaço regido pela violência, e se dão mal (não conheço estatísticas, mas este encontro entre público e privado que os chat rooms oferece tem levado a um sem número de crimes especialmente no brasil). Depois voltam pra casa (ou para os noticiários de tv e as mídias outras, porque eles sim têm acesso direto a tudo isso) e vão choramingar da violência, que "os outros" (que são eles mesmos) não os respeitam - de confiança nem falar - e que as regras (hahahaha) não foram cumpridas. A palavrinha chave é "Absurdo!"
Do seu discurso, fica claro que imaginam alguma transformação, mas também que querem passar por tudo sem dor ou sofrimento. O difícil é imaginar isso em um espaço regido menos pelas regras e mais pela violência.
Assim vejo os ciclistas atropelados em porto alegre. Bem vindo ao brasil que vocês criaram para os outros.

2 comentários :

M.R. disse...

É bastante salutar o encontro da classe média brasileira com o seu duplo. Que esse espelho ainda seja em boa parte visto como 'o outro', é claro, incomoda. Mas a generalização não enxerga as rupturas. Tenho presenciado evoluções.

A violência pode deixar de ser regra do jogo social por aqui, assim como já o foi, por muito tempo, em algumas cidades da parte velha do mundo. E isso é o que importa.

drmukti disse...

Oi Marcos,
gostaria de compartilhar do otimismo que descreve como "espelho" a relação que a "classe média" tem com os mais pobres; infelizmente olho ao redor, inclusive dentro da universidade (sala de aula) e nao percebo isso.
E que um dia a violência seja banida do jogo social, aqui e em qualquer lugar onde ela exista! É uma das coisas que importa.