terça-feira, 5 de abril de 2011

preto homofóbico? Pode! Pode? Como assim?

ainda o caso bolsonaro: na semana passada o jornalista Ricardo Boechat leu email de um ouvinte, que se intitulou negro, neto, bisneto, tataraneto de escravos, e que defendia o direito de o deputado Bolsonaro dizer o que disse na famosa entrevista ao cqc. Boechat aproveitou este trecho do email para abrir um debate sobre a liberdade de expressão de idéias: o famoso jornalista construiu o argumento dizendo que nos EUA, apontados por ele como exemplo máximo de democracia, era permitido um partido nazista.
Mas depois disso, o jornalista seguiu com a leitura e o autor do email revelou a verdadeira razão da defesa "da liberdade de opinião": ele, como Bolsonaro, também não gostaria de ter um filho gay. Aí ficou tudo claro. Pena que o famoso repórter insistiu em defender "a liberdade de expressão como nos EUA."
Bem, as leis contra o racismo hoje no Brasil são bastante rígidas, o que é bom, e por isso hoje no país alguém pode se dar ao luxo de tratar uma declaração racista como parte do jogo democrático, da liberdade de opinião: afinal, ele sabe que não será difícil enquadrar alguém no crime de racismo.
Mas homofobia no Brasil não é crime. E diferente do racismo neste país, homofobia mata. E não somente mata: faz crianças e adolescentes sofrerem, inlcusive dentro da própria família (como bolsonaro e o ouvinte da rádio deixam entender). E todos sabemos do grande empenho de determinados grupos que tentam a todo custo no congresso nacional manter o direito de propagar o ódio e a discriminação, com graves consequências contra a população LGBT. Eu seria a última pessoa a não defender a liberdade de opinião, mas também seria a última pessoa a achar que o direito à liberdade de opinião está acima do direito à vida: permitir a homofobia no Brasil, mesmo disfarçada de liberdade de opinião, é ser conivente com assassinatos. Parafraseando uma antiga canção popular: "mas também sei que qualquer opinião (ou qualquer canto), é menor do que a vida de qualquer pessoa."
Eu nunca entendi a associação no Brasil da luta contra o racismo com a luta contra a homofobia. Acho que o ouvinte do programa de rádio do famoso jornalista é mais representativo do que o que se admite: muita gente que hoje encontra amparo nas leis contra o racismo nao vê problema algum em ser homofóbico. E se a situação fosse ao contrário, não seria diferente: caso houvesse leis que protegessem a população LGBT e nenhuma lei contra o racismo, uma boa parte não se importaria nem um pouquinho com o problema dos outros. 
Por fim, queria ainda mandar um recado para Boechat (eu sei que ele não vai ler este meu blog): diferente dos EUA - país onde o sistema vigente reduz todo o discurso político a uma dupla de partidos ligeiramente distintos e onde grupos que representam idéias minoritárias na sociedade têm uma imensa barreira para se fazerem representar no congresso -, na Alemanha, onde a representação política no parlamento é muito mais plural e democrática, a defesa de idéias nazistas é completamente proibida, sendo um crime grave previsto em lei. E os alemães sabem por quê. E isso não os faz hoje menos democráticos que os norte-americanos. De jeito nenhum.

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