terça-feira, 17 de maio de 2011

trás em vez de traz ou nós e o português

Dois momentos distintos no dia: pela manhã recebi de várias pessoas um link para o depoimento de uma professora do Rio Grande do Norte, apresentado como resumo da educação no Brasil. A professora abre sua fala referindo-se ao seu salário de três algarismos. Bem, pelo que vi ontem em especial na Globo, esta não é uma situação nacional, pois professoras no interior do Rio Grande do Sul ganham 3 mil reais por mês (quatro algarismos). Também não creio que em nenhum momento, em nenhum lugar no país a educação não foi prioridade. Pode não haver continuidade de trabalho, mas há durante o século XX e em alguns lugares isolados exemplos de tentativa de priorizar a educação. Mais uma vez a generalização por meio do nunca acaba por enfraquecer o que está sendo dito.
O discurso dela é bastante coerente com a sua situação, a de uma pessoa em greve por melhoria salarial. Mas a questão da educação no Brasil, convenhamos, é muito mais ampla. Apenas para citar um pequeno detalhe: falta à quase totalidade das escolas públicas de Salvador área livre adequada para esportes e não há melhoria salarial dos professores que dê jeito nesta questão. A melancolia do vídeo é mesmo pensar que daqui a pouco tempo esta pessoa venha a estar completamente cooptada pela política, negando todo o vigor apresentado no vídeo.
Bem, ao menos a professora falou cerca de oito minutos sem cometer qualquer erro mais grave de português (admite-se na língua falada a substituição do para pela contração pra). Como ela mesmo esclarece, ela tem diploma de nível superior e é pós-graduada, não deveríamos esperar outro desempenho seu.
Agora à noite, recebi email contendo uma carta da Associação Nacional de Pós Graduandos que trata da confusão na distribuição de bolsas de pesquisa para pessoas com vínculo empregatício. Na referida carta, o verbo trazer na terceira pessoa do singular é grafado da seguinte maneira: trás. Minha primeira reação foi a de pensar que quem comete tal erro não deveria nem ter passado no vestibular, mas desde esta semana isso talvez seja preconceito linguístico.
A professora sem erros no seu discurso recebe um salário inferior às bolsas, às quais se pode ter acesso sem que se saiba conjugar o verbo trazer (e nem era no subjuntivo.....). Talvez esta situação funcione bem melhor como um retrato do país do que aquela descrita pela professora potiguar.
E não posso deixar de me perguntar: diante de pós-graduandos que não sabem conjugar o verbo trazer - e o fazem em forma escrita -, como encarar o livro do ministério da educação que relativiza "sociologicamente" erros gramaticais na fala? É para liberar geral e por fim a qualquer noção de regra para a comunicação através da língua? Ou será que é evidente que precisamos todos falar e escrever o português de maneira muito melhor, mais correta e precisa, ou seja, seguindo as regras da gramática?
Há frases onde a diferença entre um traz e um trás pode levar a erros de grandes dimensoes na compreensão da mensagem. Imagina algo semelhante na conversa profissional mantida por uma equipe médica na sala de cirurgia. Somente isso.

domingo, 8 de maio de 2011

perdendo códigos do coletivo

Era a primeira metade dos anos 70, porque lembro vagamente que meu pai ainda era vivo: aprendi que se o acrílico luminoso com a palavra TAXI sobre um automóvel estivesse aceso, signifcava que o carro estava livre e que você poderia acenar com a mão para indicar que você queria tomar aquele táxi; caso estivesse apagado, você que estava na rua à espera de um táxi podia ter certeza que aquele carro conduzia um passageiro e que não adiantaria levantar o braço.
O espaço urbano cheio de códigos coletivos parecia ser, para uma criança então, que aprende as três cores do semáforo antes de aprender a ler, um campo comunicativo cuja funcionalidade se dava através de uma série de luzes que acendem e apagam segundo regras específicas.
Hoje em dia em Salvador nenhum taxista segue este código - já perguntei a vários e nenhum sequer já tinha ouvido falar disso. À noite, você nunca sabe se um táxi está ocupado ou não, tem que acenar para todos, ainda mais porque a maioria tem os vidros escurecidos por película e você nem pode tentar advinhar se há alguém no interior do veículo além do motorista. Tudo muito grosseiro e desagradável, ficar na calçada acenando para todos os táxis.
Um código coletivo do espaço urbano que se perdeu. Deve ser consequência do esvaziamento do espaço: a cidade sem urbanismo é a cidade sem gente na rua e é a cidade sem urbanidade (no sentido que esta palavra tinha na segunda metade do século XIX).
Entre a população que ainda caminha na rua, você vê muita gente que anda com a ponta de um guarda-chuvas fechado voltada para o outro que caminha em direção contrária, ou gente que mantém a mochila às costas dentro do ônibus, dificultando quem quer passar adiante pelo corredor estreito. No rosto de ambos, a expressão de quem nem percebe que outra pessoa, por acaso no mesmo espaço que ele, é parte de um coletivo social. Tudo autônomo: como imaginar diante disso o luxo de um código qualquer, mesmo um binário? A lista de exemplos em escala decrescente do tamanho do coletivo seria imensa e terminaria na completa ausência de respeito e elegância do ambiente arquitetônico fechado usado por um pequeno grupo: quem fala ao telefone celular no cinema ou come em sala de aula são os ícones de tal comportamento.
A grade e o muro são pura ação: não é necessária nenhuma decodificação para entendê-los, basta experimentá-los, os organizadores básicos da supressão do coletivo, do público, do comum. E sem uma instância qualquer de coletivo, não há códigos. Assim parece funcionar tudo. Só o espaço urbano não funciona, só isso.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

5 de maio de 2011 ou sempre alerta

Os discursos dos ministros do STF em geral foram bons, o dia fica marcado como o de um grande passo em direção à igualdade, ao respeito, à dignidade e à liberdade. E este é um sentimento muito bom, mesmo que ainda haja muito por conquistar.
O que se precisa construir é uma sociedade onde ninguém tenha que sofrer somente por ter uma orientação sexual distinta da heteronormativa. E na qual os cidadãos sejam todos iguais perante a lei. O Supremo fez hoje uma parte importante.
Mas há que permanecer em alerta. O congresso nacional ainda poderia em tese reverter esta situação. O exemplo da Áustria nesta matéria é suficiente para que seja mantido o espírito de luta: depois de vários recursos na justiça do país, um casal homossexual conseguiu na suprema corte europeia que os direitos reconhecidos para os casais heterossexuais em união estável fossem estendidos aos casais homossexuais. Foi necessário uma ameça de sanção para que o congresso austríaco tomasse alguma providência. E quando ele o fez, foi da seguinte maneira: como a justiça impoe a igualdade dos direitos, então retiremos todos os direitos hoje reservados aos casais heterossexuais, deixando apenas ao casamento todo o conjunto dos direitos de família. Assim eles fizeram: todos em igualdade passaram a ter quase nenhum direito. A maldade não tem limite. E como o congresso brasileiro hoje é tudo menos progressista, há que se manter a vigilância.
Hoje a situação na Áustria mudou, já há parceria reconhecida pelo Estado em forma de documento desde 1 de janeiro de 2010. Mas ainda é um país muito distante da Espanha neste tema. Para o Brasil então, esta distância em relação à Espanha é a de um caminho muito longo.
Mas de qualquer maneira, desde ontem o Atlântico ficou menos largo.