domingo, 8 de maio de 2011

perdendo códigos do coletivo

Era a primeira metade dos anos 70, porque lembro vagamente que meu pai ainda era vivo: aprendi que se o acrílico luminoso com a palavra TAXI sobre um automóvel estivesse aceso, signifcava que o carro estava livre e que você poderia acenar com a mão para indicar que você queria tomar aquele táxi; caso estivesse apagado, você que estava na rua à espera de um táxi podia ter certeza que aquele carro conduzia um passageiro e que não adiantaria levantar o braço.
O espaço urbano cheio de códigos coletivos parecia ser, para uma criança então, que aprende as três cores do semáforo antes de aprender a ler, um campo comunicativo cuja funcionalidade se dava através de uma série de luzes que acendem e apagam segundo regras específicas.
Hoje em dia em Salvador nenhum taxista segue este código - já perguntei a vários e nenhum sequer já tinha ouvido falar disso. À noite, você nunca sabe se um táxi está ocupado ou não, tem que acenar para todos, ainda mais porque a maioria tem os vidros escurecidos por película e você nem pode tentar advinhar se há alguém no interior do veículo além do motorista. Tudo muito grosseiro e desagradável, ficar na calçada acenando para todos os táxis.
Um código coletivo do espaço urbano que se perdeu. Deve ser consequência do esvaziamento do espaço: a cidade sem urbanismo é a cidade sem gente na rua e é a cidade sem urbanidade (no sentido que esta palavra tinha na segunda metade do século XIX).
Entre a população que ainda caminha na rua, você vê muita gente que anda com a ponta de um guarda-chuvas fechado voltada para o outro que caminha em direção contrária, ou gente que mantém a mochila às costas dentro do ônibus, dificultando quem quer passar adiante pelo corredor estreito. No rosto de ambos, a expressão de quem nem percebe que outra pessoa, por acaso no mesmo espaço que ele, é parte de um coletivo social. Tudo autônomo: como imaginar diante disso o luxo de um código qualquer, mesmo um binário? A lista de exemplos em escala decrescente do tamanho do coletivo seria imensa e terminaria na completa ausência de respeito e elegância do ambiente arquitetônico fechado usado por um pequeno grupo: quem fala ao telefone celular no cinema ou come em sala de aula são os ícones de tal comportamento.
A grade e o muro são pura ação: não é necessária nenhuma decodificação para entendê-los, basta experimentá-los, os organizadores básicos da supressão do coletivo, do público, do comum. E sem uma instância qualquer de coletivo, não há códigos. Assim parece funcionar tudo. Só o espaço urbano não funciona, só isso.

Nenhum comentário :