quinta-feira, 9 de junho de 2011

Oslivro em Inscençatu Corassãu

Aconteceu no capítulo desta quarta-feira, em uma daquelas cenas onde o timbre muito agudo e o sotaque baiano de Lázaro Ramos fazem a interpretação dele do pegador carioca da zona sul muito pouco convincente. No meio de uma cena mais enérgica, é difícil dizer se o texto foi escrito desta maneira ou se foi um deslize do ator, mas ali, reclamando de ciúmes, a seguinte frase foi por ele pronunciada:
"Daqui a pouco meu filho vai estar convivendo mais com esse cara do que eu."
É necessário explicar: os ciúmes nao eram de um caso bizarro de pai e filho gays que estivessem paquerando o mesmo cara; o ciúme era do namorado da mãe do filho do personagem, que é um bebê, que estaria passando mais tempo com o atual namorado da mãe do que com o próprio pai. Só que, para isso, ele deveria ter dito "do que comigo" e não "do que eu". Eu é a forma da primeira pessoa do singular na função de sujeito, ou caso reto; portanto, o eu da frase eclipsada somente pode substituir o sujeito da oração que lhe precede, que é meu filho. Para expressar o que ele queria dizer, ele deveria ter usado "comigo", palavra que em português representa a contração entre a preposição com e o caso oblíquo do pronome da primeira pessoa do singular, me.
Um belo exemplo de que mesmo na língua falada as regras demonstram claramente porque elas existem. Sim, eu sei que a turma do "preconceito linguístico" mesmo assim vai querer ter razão. Só não vão conseguir se fazer entender. Ou vai ter que argumentar que naquela cena, o macho pegador se reveleva um bissexual em disputa com a mãe de seu filho pelo atual namorado dela. Mas a história não seguiu assim. Era uma frase simplesmente errada.

Um comentário :

Patricia Reis disse...

Márcio, perfeito!
Quando ouvi as críticas sobre o Lázaro, sempre argumentei isto: o texto o faz um personagem cafajeste, mas o sotaque tentando ser carioca acaba qualquer tentativa de interpretaçao.