quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

RIP Luis Mansilla

Algumas arquiteturas são arrebatadoras, grandiosas, encantadoras; assim é o MUSAC em Leon. Já havíamos visitado os edifícios históricos e os museus da cidade, deixamos o MUSAC para o final, já na rota de saída para continuar a viagem em carro. O museu surgiu magistral, após uma sequência longa de quadras que poderiam estar em qualquer cidade da Espanha, em uma generosa abertura espacial.
As cores dos vidros nos volumes que formam a "fachada principal" do edifício remetem em uma primeira e rápida percepção às cores do Brandhorst Museum em Munique, mas enquanto o projeto de Sauerbruch & Hutton tratam o compacto volume com uma pele total - interrompida apenas por poucas áreas de esquadrias de vidro -, os vidros coloridos do MUSAC estao limitados à área de entrada do público, sendo utilizado o vidro incolor para os outros volumes que compoem o edifício: a arquitetura se recusa irônicamente a ser cenário urbano e elabora ao mesmo tempo uma acusação cheia de desdém a qualquer contextualismo. Muito bom.
É verdade que o MUSAC está coberto de descriçoes que relacionam seus vidros coloridos aos vitrais da catedral da cidade, mas desde que as cores dos vidros de sua fachada jamais são percebidas no interior do edifício, fica claro mais uma vez que tais "discursos ligados ao lugar" pouco tem a ver com o museu.
Entrando no museu, o usuário se depara com um dos saguoes mais bonitos do mundo, em um espaço onde a leveza construtiva associada aos grandes vãos de abertura e à inversão tectônica entre o interior e o exterior, já garantiria em boa parte um imenso destaque ao edifício.
Mas é na relação entre a simplicidade da geometria da unidade básica de composição em planta-baixa - um paralelogramo - e o impressionante espaço labiríntico formado pelas salas de exposição e pátios que a arquitetura do MUSAC se faz. Por sorte, estive ali quando um artista influenciado por ideias de filósofos franceses propôs para o espaço de uma das alas do museu um vazio com variaçoes de iluminação como "obra de arte": que prazer ter podido percebê-lo desta maneira, como puro espaço (e esta foi uma das poucas coisas interessantes que já vi surgir a partir destas ideias filosóficas que estão em moda no mundo das línguas latinas há uns 25 anos.....).
No fundo, a maestria deste prédio pode ser medida pela impressão mais forte que a sua planta deixa: tenho a suspeita que se um estudante de arquitetura propusesse algo assim como solução de projeto para um exercício nas universidades mundo afora, não seria tão facilmente aceito pelos docentes.
O MUSAC é arquitetura, na sua mais precisa e transcendental compreensão. Uma grande aula, um edifício como poucos até agora no século XXI. Quem for visitá-lo, não deixe de prestar atenção na antecâmara da entrada, ao lado direito de quem entra, onde está instalado o charmoso porta-guarda-chuvas: ali sim, uma lição de como e em que intensidade a arquitetura deve se relacionar com a cultura local.
É uma tristeza saber que um dos seus autores, Luis Mansilla, morreu hoje tão jovem.

porta-guarda-chuvas do MUSAC

2 comentários :

YANKITINGO disse...

MARCIKO,
ADOREI SEU TEXTO E, COMO QUASE SEMPRE É, BRILHA E RELUZ, É DA COR DA JABUTICABA E DA COR DA LUZ DO SOL. É UMA ARQUITETURA (O MUSAC DE LEÓN-MANSILLA "Y" TUNON) QUE MAIS ME FÊZ SURGIR PÉ DE GALINHA E, QUE COLOCO EM PÉ DE IGUALDADE (NA ESPANHA)SÓ COM O CEMITÉRIO DE LA IGUALADA, PAÍS BASCO, DE CARME PIÑOS "Y" ERIC MIRIRAILLES - SOBRETUDO A PRIMEIRA, SE NÃO CONHECE, RECOMENDO!!!QUANTO A MORTE O SEÑOR LUIS, AGORA SIM PODE FAZER MAIS QUE ANTES - MAS, VALE O REGISTRO. PR'Ô CÊ - TUDO DE MELHOR QUE OCÊ SE POSSA IMAGINAR,
YANKITINGO=JOÃO JOSÉ BELTRÃO

drmukti disse...

Muito obrigado, Beltrao! Forte Abraço!