domingo, 10 de junho de 2012

o legado das copas: elefantes brancos na europa

Este texto, de autoria de Sigi Lützow foi publicado esta semana, no dia 5 de junho, no jornal Der Standard, edições online e em papel. O seu conteúdo é tão interessante para o Brasil em pleno período de realização das obras nos estádios para a Copa do Mundo de 2014, que resolvi traduzi-lo ao português.
Elefantes Brancos na Europa
Da coluna “Coisas para serem vistas”, Sigi Lützow, 5 de junho de 2012, 19:29
A máxima que vale para carros novos, vale também para muitos dos estádios de futebol construídos por ocasião do Campeonato Mundial ou do Europeu: no momento em que ele começa a ser usado, o seu valor é reduzido drasticamente. Uma valorização ao longo dos anos é completamente fora de cogitação. Mas enquanto um carro completamente detonado ainda guarda um determinado valor residual, os estádios postos em utilização apenas geram despesas, que rapidamente podem ultrapassem os custos de construção iniciais.
Conceitos para o uso dos estádios após a sua inauguração interessam à confederação europeia UEFA e à confederação mundial FIFA apenas em casos excepcionais, especialmente quando decisões bizarras precisam ser justificadas. É assim que a escolha do Emirado do Qatar como sede da Copa do Mundo de 2022, que possui uma área que nem chega a ser equivalente à do estado da Alta Áustria (Obs. do tradutor: A Alta Áustria tem uma área equivalente à metade da área do Estado de Sergipe) e que construirá nove estádios novos e ampliará outros três, entre outras coisas, foi justificada com o argumento de que parte dos estádios será desmontada após a Copa do Mundo e serão doados a países em necessidade.Portugal proibiria tal presente vigorosamente. 
O anfitrião da Eurocopa 2004 (o título foi conquistado pela Grécia!) carrega com dificuldades o legado deixado por aquele verão cheio de energia. O legado é tão pesado, que se tornam cada vez mais concretos os planos, de simplesmente demolir os estádios agora completamente desnecessários, onde jogam apenas realmente times da segunda divisão ou, no melhor dos casos, times de segunda categoria da primeira divisão, e, desta maneira, economizar o custo de manutenção.Estes custos de manutenção podem ser substanciais. Na Áustria, o supostamente mais bonito, mas certamente o mais desnecessário estádio de futebol, o Estádio Worthersee, em Klagenfurt, consome a cada ano, pelo menos 500.000 euros somente com a manutenção predial – sem que haja nenhum jogo, diga-se de passagem. 
Apesar do uso moderado ou praticamente inexistente daquele que abrigou apenas três jogos da Eurocopa 2008, sabe-se agora que, para além dos custos de construção de cerca de 50 milhões de euros, foram investidos por fora, graças a um contrato de financiamento junto ao governo federal, outros 15,5 milhões, para a conclusão da bacia de 30.000 lugares.Jogados no lixo devem ser considerados os milhões investidos no estádio Tivoli em Innsbruck, enquanto que o único estádio novo que teria sido justificado para a Eurocopa 2008 , que seria o de Viena, de fato permaneceu no papel. A arena de Salzburgo é, pelo menos, a casa do Red Bull Salzburg, um time com potencial financeiro, o que vem a ser um ponto de referência para o estádio de futebol atual em Kharkiv, na Ucrânia, cuja construção, no entanto, foi em grande medida auto-financiada por parte do seu dono, o time de futebol Metalist.
Mais de dois bilhões de euros foram investidos pela Polônia e pela Ucrânia nos oito estádios onde na próxima sexta-feira se inicia o Campeonato Europeu, sendo que alguns estádios, como a Arena de 220 milhões de euros em Lviv, o estádio oval de Gdansk, que custou 190 milhões de euros e a “coisa” de 210 milhões de euros em Wroclaw, à exceção de seus três ou quatro jogos do Campeonato, foram construídos totalmente acima da demanda futura.Na África do Sul, esses investimentos são chamados de elefantes brancos. Há alguns destes por lá, que desde a Copa do Mundo de 2010 consomem uma média de dois milhões de euros por ano em custos operacionais. Diante da pobreza no país, este é um legado duplamente amargo deixado pelo Rei Futebol, que quase como em nenhum lugar é celebrado cotidianamente como na Alemanha. Por esta razão é que a infraestrutura de estádios para a Copa do Mundo de 2006, o chamado “sonho de verão”, pode ser visto como o único exemplo contrário, positivo. 
(Sigi Lützow, Der Standard, 6/7 Junho 2012)
aqui o link para o texto original, acompanhado de fotos dos 14 estádios
http://derstandard.at/1338558758010/EM-Stadien-als-Problemfaelle-Weisse-Elefanten-in-Europa

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