segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

espaço, esta abstração fascinante

Você pode ler sparação onde você quiser, especialmente se você estiver convencido da ideia de que a melhor solução para a separação é a própria separação. Os espaços construídos cotidianamente (não o espaço, esta abstração fascinante) em uma cidade como Salvador, sejam eles projetados por arquitetos ou não, tomam, nas últimas três décadas, como pressuposto para a sua realização o imperioso ato de separar : são as grades, os muros, os condomínios fechados, as administrações destes condomínios estruturadas para que os moradores não precisem "ir à rua", o desprezo oficial e cultural pela calçada, pela praia, o fetiche do automóvel (separação móvel no espaço) contra o ônibus, enfim, quase tudo que organiza o cotidiano de um soteropolitano médio. Alguém até mesmo poderia obviamente citar o shopping center como espaço privilegiado pelos cidadãos para lazer e consumo, com as suas estratificações sociais possíveis no interior do edifício privado, como um ícone desta supressão do espaço público.
O limite mais evidente destas separações ficou marcado pela época em que a prefeitura da cidade resolveu cercar de grades (que se pretendiam mais amenas por serem artísticas) as praças no centro da cidade, como o Campo Grande ou a Piedade. O Teatro Castro Alves também foi gradeado, pouca coisa sobrou de acesso livre ao púlico. Podemos imaginar que nas cenas que se desenvolvem nestes espaços construídos - organizados para a separação - os atores apresentam certas recorrências, de um lado e do outro do muro ou da grade, em uma cidade extremamente desigual do ponto de vista social. Podemos inclusive calibrar nossa observação através da imaginação para enxergar somente os tipos recorrentes e deixar de lado talvez o que há de interessante na variação; seria uma escolha.
Quando arquitetos se debruçam sobre espaços abertos, sem grades ou outros obstáculos maiores ao acesso, e realizam propostas que mantém o caráter de livre acesso a este espaço, já seria um grande motivo para comemoração em uma cidade cujos elementos mais básicos faltam, como é o caso de Salvador. Realizar um projeto para uma praça e conservar o seu caráter público é portanto eminentemente salutar: é conservar no projeto a chance de que qualquer pessoa acesse o espaço da praça. Agora uns, em outro instante, outros, mais adiante, outros dos outros: no espaço público aberto, sem grades ou muros, o usuário pode ser qualquer um, basta entrar. Um pouquinho de imaginação, curiosidade e reflexão pode ser útil para vislumbrar gente a mais diferente possível em um espaço de praça sem cercas a partir de uma imagem qualquer. Alguém pode até imainar o auxílio mais contemporâneo da videovigilância para a manutenção das separações, mas diante de uma única imagem, que não faz nenhuma referência a tal equipamento, isso seria pura imaginação de quem queira construir a separação. Pois sempre haverá quem queira ver separação em tudo, mesmo numa praça aberta. Talvez mudar as lentes ajude. Mas talvez seja necessário mesmo deixar de lado a má vontade.

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