segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A Praça Castro Alves é do Palco

Uma das minhas memórias de infância do carnaval é ter visto o bloco do Jacu de CAMAROTE: um conhecido de algum parente morava em um apartamento na Praça da Piedade e em um carnaval tive a chance de ver o bloco passar da janela, do alto, separado do chão da rua, em um ambiente privado (e familiar).
Durante décadas apartamentos na Avenida Sete, quartos de hotéis na Barra e salas comerciais em ambos os circuitos vem sendo alugados com este propósito: em função da vista privilegiada e da distância espacial em relação ao chão da rua, eles foram e são transformados em camarotes.
O problema de hoje então não é da função do espaço e sim da escala: quando os lucros dos blocos chegaram ao seu limite e os espaços "ociosos" como aqueles do Edifício Oceania ou do estacionamento onde funciona o camarote de famosa cantora foram descobertos como multiplicadores de lucro, eram as dimensões destes espaços um dado fundamental para o seu sucesso.
Entretanto, enquanto o camarote comercial (em oposição ao da escala familiar) se limitou a ocupar espaços já existentes e construídos no espaço da cidade, ele não foi visto em si como um problema maior para a festa do carnaval. Tanto a área do Oceania, como a área do estacionamento ao lado do Barra Center não são multiplicados pela suas transformações em camarotes, eles não avançam em seu programa e ocupação territorial sobre o carnaval.
A primeira grande revolta popular contra os camarotes aconteceu quando no ano de 2000 a prefeitura autorizou a construção de estruturas no lado da praia na Barra para a ocupação por dois ou três andares de camarotes. Ali, o padrão de ocupação dado pela função (que multiplicou em pisos sua área) causou transtornos espaciais à festa na rua: o acesso à praia foi extermamente limitado e foi criada uma barreira física à ventilação. A crítica foi forte o suficiente para que tal experimento não tivesse se repetido.
De lá para cá, a perversão do modelo comercial do camarote criou distorções notáveis, como os imóveis situados à Avenida Oceânica que já não precisam ser usados durante todo o ano, garantido sua manutenção somente pelos lucros advindos dos dias do carnaval. Ao mesmo tempo, espaços tiveram seus pisos multiplicados e suas fronteiras foram sendo ampliadas, para garantir um lucro cada vez maior a esta exploração comercial da festa ao lado da festa do carnaval. A escala da exploração desta função foi o que mudou.
No ano passado, o avanço em escala física do camarote que tem o nome da cidade foi o aparente estopim para um protesto que adquiriu contornos políticos muito amplos muito rapidamente. Reclamava-se que o tal camarote estava usando por muito tempo o espaço público de uma área que até aquele momento nunca tinha sido praça - e sim, estacionamento - mas que por causa de uma "reforma" havia recebido tal designação.
Poderia haver um paralelo com o acontecido em 2000, mas a natureza do protesto era diferente, o que ficou claro com a rápida articulação com a disputa política de outubro passado e com a certa indiferença com que foi tratada por parte dos revoltados de então a construção do mesmo camarote na mesma área este ano.
Não era o espaço, nem como ele é usado cotidianamente, nem durante a festa do carnaval, o que estava em questão, meu ceticismo de então se confirma este ano mais uma vez: não vi uma voz até agora reclamar ou se indignar com a ocupação completa da Praça Castro Alves por um palco para shows, com tapumes fechando toda a área pavimentada por pedras portuguesas.
Esta não é a "Praça do Povo", que existe há MUITO mais tempo do que aquela área de estacionamento de Ondina chamada de Praça há pouco mais de um ano? Esta não é a Praça Pública tão aclamada pela "tradição do carnaval" e que por isso não deveria ser a mais defendida como espaço de livre acesso ao público por quem defendeu tanto o espaço da área de Ondina ocupada pelo Camarote?
O constrangimento ao uso da Praça é o mesmo, lá e cá. O espaço público, de acesso ao público em geral, está restrito à área asfaltada limitada pelo meio-fio. Além disso, está destinado a um uso privado, lá e cá (e poderia até ser alegado que muito mais gente por metro quadrado ocupa a área em Ondina).
O espaço - suas dimensões e os outros elementos de sua configuração testados por eventos "estressantes" para o seu uso, como é o caso do carnaval de Salvador - revela a limitação das tentativas de quem acredita o tempo inteiro poder investi-lo impunemente de ideologias, ao ponto de revelar claramente os jogos de interesses, muitas vezes mal disfarçados.
O espaço da Praça Castro Alves hoje é do Palco como é do Camarote o espaço da praça (sic) de Ondina. A livre circulação e o livre uso dos espaços públicos no carnaval tem sido impedidos por alguns camarotes, alguns palcos, muitos outros tapumes excessivos, barreiras infindáveis de ambulantes quase sem intervalos, tráfego descontrolado de veículos. Estes são impedimentos físicos, todos importantes, a serem tratados de diversas maneiras. O carnaval e a cidade agradeceriam se alguma atenção fosse dada a isso. Sem maniqueísmos.

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