quinta-feira, 31 de outubro de 2013

do assistencialismo, da meritocracia e da cópia autenticada

Assistencialismo e Meritocracia sao dois lados da mesma moeda.
Assistencialismo foi a palavra mais recorrente usada para criticar frontalmente os programas de transferência de renda muitas vezes denominado de "programas sociais" pelo Estado brasileiro. A negatividade do sufixo -ismo é a mesma contida no uso da palavra homossexualismo para designar homossexualidade.
Não consigo imaginar que alguém de sã consciência seja contra a ideia de assistência, ainda mais em uma sociedade. Em casos de catástrofes, prestamos assistência aos necessitados: seja um incêndio, uma enchente, um furacão. Uma pessoa doente ou acidentada precisa de assistência médica, e para verificar como o termo foi "pejorativizado", hoje no Brasil só se usa Plano de Saúde para designar o que há 20 anos se chamava Assistência Médica. Então a ideia de que uma sociedade resolva prestar assistência social (sim, existe inlcusive uma profissão com este nome) às pessoas em condições de vida abaixo da dignidade humana e oferecer a estas pessoas alguma possibilidade de sair desta condição não deveria ser difícil de ser amplamente aceita.
Como nada é muito simples, oferecer o peixe sem ensinar como pescar não pode durar muito tempo, esta é uma medida que só pode ter caráter emergencial. Então há problema sim, com o que uma sociedade faz daquilo que deveria ser assistência social: se a meta social é comprar eletrodomésticos da linha branca, carros e carros e calças de 300 reais e se professores em busca de melhores condições de trabalho são espancados nas ruas pelas polícias, há que se reconhecer que algo de errado está em curso nesta noção de "assistência". Das chantagens eleitorais eu nem pretendo falar.
Bem, o outro lado da moeda é tentar desqualificar toda e qualquer noção de mérito através da palavra meritocracia. O sufixo aqui age de uma maneira mais sutil: com a última sílaba da palavra mérito, a associação é feita imediatamente com aristocracia e nao com democracia. As consequências são as mesmas: da mesma maneira que toda e qualquer assistência torna-se alvo de ódio e incompreensão, aqui o mérito em si passa a ser questionado: em defesa do que é chamado em geral de "reparação" não se pode mais reconhecer mérito algum em ninguém.
Em mérito existe uma noção tão simples como a de assistência: não tem porque entregar o seu computador ao seu dentista para consertar se ele não tem o mérito para isso (no sentido de ele não ter conseguido alcançar o patamar necessário para tal conserto) e, da mesma forma, não se faria o contrário, ou seja, um tratamento de canal com o técnico de informática.
O discurso contra o mérito por trás do uso da palavra meritocracia adora usar o exemplo do acesso às universidades via vestibular. Por este raciocínio, é um erro a universidade ter a chance de escolher os candidatos a estudantes mais bem preparados, porque quem deveria preparar os estudantes o fez de maneira ruim, se o fez. Outro exemplo pode ser visto nos efeitos da transformação da luta feminista em política de cotas em alguns países da Europa Central: a prática deste sistema levou com os anos a uma situação na prática onde em um concurso para uma vaga de professor catedrático nas universidades, caso haja uma mulher inscrita, ela será automaticamente a escolhida, independente mesmo do currículo. As consequências de não escolher o/a/x melhxr professxr pesquisadxr tem efeitos sociais muito maiores do que aqueles para a candidata escolhida.
No Brasil, a falência da capacidade de gerar iguais oportunidades agora é combatida com o ataque a quem tem algum mérito; pela lógica absurda, se você tem algum mérito, você é culpado de alguém não ter, não importa o esforço que você tenha feito para isso. Mérito se tornou xingamento. Tenho a impressão que a única coisa a substituir a ideia de mérito no Brasil é o jeitinho, a lei de Gerson. Até cair o primeiro prédio mal calculado.
Porque afinal enquanto a socidade brasileira for aquela da cópia autenticada, pode-se ir para um lado e para o outro, pouca coisa muda substancialmente. A cópia autenticada é a medida que demonstra a desconfiança como um dos principais elementos de coesão social do país. Por princípio, cada brasileiro vê no outro um Gerson pior. Cada vez mais, com exemplos que demonstram ter bastante mérito para isso.

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