sábado, 24 de maio de 2014

Sem redenção: Quarteto de Heiner Müller, montagem do Teatro NU

Após a Terceira Guerra Mundial, não há redenção.
Assisti a Quarteto, dirigida por Gil Vicente Tavares para celebrar seus 15 anos de carreira, na última quinta-feira, no dia em que a companhia convidou o público presente para um bate-papo sobre a produção. Depois de um espetáculo arrebatador, poder escutar a equipe comentando o processo criativo, a apuração dos detalhes e as interpretações feitas pela platéia foi mesmo uma chance única de poder aprofundar a reflexão sobre as tensões levantadas pelo texto e pela montagem.
Particularmente, o bate-papo ofereceu uma série de elementos que demonstraram o quanto a tomada de posição conceitual desta montagem é transcrita de maneira consequente em todos os seus aspectos, revelando um trabalho apurado de detalhamento na elaboração: foi possível perceber alguns mecanismos que alimentam a tensão sintética, marca do universo estético da companhia.
Uma das especiais decisões desta montagem está no círculo que determina a cena: muito além de ser um elemento regulador em um espaço marcado pela irregularidade formal como é o Teatro do ICBA e de fazer uso do fato de toda a plateia ali poder olhar do alto a superfície do palco, o círculo é uma das chaves da interpretação do dilema cenográfico imposto pelo autor do texto: um salão francês decadente / um bunker após a terceira guerra mundial. Espaço interior, o círculo decomposto nas 4 direções cardeais, tensão entre centralidade e rompimento do círculo, primazia espacial, tempo residual após o fim do tempo. O Quarteto encenado por Gil Vicente Tavares pode guardar, entre outras tantas coisas, um comentário crítico, não exatamente otimista, ao texto da famosa canção de Bob Marley. As decisões espaciais desta montagem assim sugerem. O bunker é a cápsula que contém o resto de tempo.
E se a reflexão erudita posta em cena pela companhia de teatro obviamente não se circunscreve a este tema, a cidade que tanto se inspirou na Jamaica, este espaço no qual a sala do ICBA está contido, não deixou de ser tema do bate-papo daquela noite.
Quarteto, de Heiner Müller, em cartaz no ICBA até 31 de maio. Imperdível.

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