quinta-feira, 18 de setembro de 2014

no metrô, em salvador


Um giro de 180 graus ao redor de uma parede de concreto no andar térreo da estação da Lapa e de repente você está em outro mundo: limpeza, concreto lisinho, catracas todas funcionando e uma funcionária simpática te desejando uma boa tarde. O vazio deixado para que a clarabóia ilumine naturalmente o vão da estação Lapa é bonito, ao menos assim o permanecerá até o concreto começar a "viver".
Pouca gente para usar o metrô ainda gratuito, muitos seguranças e "cuidadores do equipamento" dão um ar de "tem que tomar cuidado se não esse povo destrói tudo logo no início". De saída, um estranhamento imenso com a gravação cumprimentando os usuários com um sonoro Oi! Será marketing da empresa de telefonia, assim, padrão "product placement"? 
O metrô passa pela estação Campo da Pólvora, de plataformas generosas, e em seguida sai do buraco para oferecer a contraditória sensação de um equipamento de parque de diversões a baixa velocidade: a considerável altura sobre o vale de Nazaré e Bonocô, associada à curva, é a abertura para uma montanha-russa frustrante, que passa o tempo todo com a velocidade de subida, ainda que ele durante o Bonocô propicie-nos a famosa subida e descida sem razão alguma (sim, com aquela consequência de aumentar o volume de concreto da obra). Sobe e desce, curva pra lá, curva pra cá, e a pessoa fica apenas no desejo de o ferrorama ser algo mais e fazer um loop irado. Não, nada disso.
O mais pertubador entretanto é a grande distância entre as estações de Brotas e Acesso Norte. Na lentidão da viagem, vamos vendo as pessoas subindo e descendo escadas, ruas íngremes, e o metrô vai devargazinho, desdenhando dos moradores de Cosme de Farias e Brotas. A paisagem urbana, já muito feia, torna-se constrangedora: duplica-se a sensação de estar em um brinquedo.
Há ainda uma estranha recorrência ao arco no metrô de Salvador, em concreto na Lapa, em estrutura metálica nas estações aéreas. E na estação do Campo da Pólvora, onde saímos depois da ida até o Retiro, há um anel de concreto sobre o grande vazio das escadas rolantes. Ao sair deste espaço, uma versão simplificada da estação do metrô em frente à estação central de trens em Nápolis e do círculo da estação da Sé em São Paulo, um novo estranhamento abrupto, sobre uma faixa de pedestres, diante do centro de saúde. Dali fui a pé até a rua chile, onde quase 100% dos imóveis estão fechados, nenhum público, nenhum negócio. Nunca pude experimentar de maneira tão viva no espaço a noção de tangente: na recusa de chegar ao centro, o metrô tangencia o fórum (é preciso se orientar para vê-lo), tangencia o centro. A roda que conduz esta cidade para onde ela está pelo visto não para.

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