quarta-feira, 4 de março de 2015

da minha experiência com trotes

Estudei no Colégio Militar de Salvador, na Pituba, onde tive minha experiência mais duradoura com o trote: ali os alunos da 5a série, lá nos anos 80, permeneciam calouros dos veteranos por no mínimo 1 ano. Isso porque como não se ingressava em outra série no Colégio, os veteranos do Segundo Grau, se quisessem, podiam tratar alguns alunos da 6a série ainda como calouros.
Os trotes que sofri no Colégio Militar e mais tarde presenciei fora da condição de calouro resumiam-se a tapas na parte posterior da cabeça - uma espécie de batismo com os meninos que acabavam de começar a ter o cabelo cortado com máquina 1, exigências de flexões nos corredores, quando os veteranos só começavam a contar quando eles quisessem e assim o calouro fazia 10 ou 15 flexões e ainda estava sendo contado zero, zero, zero...., ou simplesmente a "apropriação" da merenda que havia acabado de ser comprada depois de muito esforço pra conseguir chegar até o balcão da cantina: o veterno tomava da mão do calouro o maravilhoso pão de forma ou sonho, que só D. Regina sabe fazer. Mas nada disso cometido com excessos.
Em um ambiente onde só havia alunos do sexo masculino, aqui e ali os trotes assumiam um caráter físico e amedrontador mais forte: alguns calouros eram postos na marquise do primeiro andar, outros eram cercados por um grupo de 5 ou 6 veteranos, e em geral bullying nunca deixou de existir contra os colegas gays.
Nada disso nos parecia assustador, se comparadas às histórias dos trotes que ouvíamos terem acontecido nas décadas anteriores no Colégio. Desta maneria, a nossa perspectiva era de que o trote era algo em extinção, percorrendo um processo de enfraquecimento e futuro abandono. Entretanto, antes de o trote ser extinto, o que foi extinto  foi o Colégio Militar de Salvador, que fechou as portas pouco depois da minha conclusão do Segundo Grau em 1986.
Ao entrar na Universidade, pouco se falava de trote. Mas não deixamos de "sofrer" um: os estudantes veteranos fingiram ser o professor da primeira aula e deram uma aula complicadíssima de descritiva, apresentando no final uma bibliografia com títulos em língua estrangeira e um calendário exaustivo de provas, além de uma lista imensa de materiais a comprar. Somente no final da aula ficou claro que aquilo era um trote. Aquilo me pareceu uma evolução sem precedentes: nada de agressões físicas, apenas uma brincadeira saudável com a expectativa nervosa de começar um curso universitário, após um vestibular que na época era concorridíssimo, ou seja, o trote baixava assim a bola de quem estava se achando algo especial por ter entrado na ufba, mas de uma maneira muito refinada.
Durante o meu período como estudante, o trote foi diminuindo a ponto de praticamente desaparecer. Entretanto, seguindo uma tendência nacional, a instituição do trote ressurgiu com força nos últimos 15 anos, associada a diversas ações físicas e consumo de bebida alcóolica. Para mim, é muito difícil não perceber este comportamento como um retrocesso, em relação tanto ao trote que foi preparado para a minha turma na universidade como em relação à minha noção muito pessoal de que o trote físico estava associado ao Colégio da maneira como o trote-aula, não físico, estava associado ao ambiente da universidade.
Continuo com a impressão de que quantos mais ritos de passagem são necessários em um ambiente cultural, mais dúvida deve haver se realmente os envolvidos no tal rito tem a maturidade que aquele rito deveria simplesmente simbolizar. Ele pelo visto não está dando conta de sua função.

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