sábado, 31 de outubro de 2015

Aqui Deste Lugar, no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema


O segundo filme de Sérgio Machado no Panorama de 2015 é o documentário Aqui Deste Lugar, filmado em 2013 em parceria com Fernando Coimbra, que mostra três famílias brasileiras beneficiárias do programa Bolsa Família. O mote do filme é investigar o cotidiano de famílias que recebem a complementação de renda do Estado a partir de um lugar muito específico: o interior da casa. Se o foco do programa é a garantia da segurança alimentar, a tomada de decisão é mais que acertada.
Como o diretor explicou no debate após a sessão de ontem no Panorama, a escolha das três famílias foi baseada em um estudo estatístico detalhado que buscou encontrar famílias típicas inseridas no programa. A diversidade das situações a individualizam: as famílias moram em regiões distintas do país (Sul, Sudeste e Nordeste) e em situações urbanas também muito distintas (metrópole, cidade média e pequena cidade).
Sérgio e Fernando registram que, além do direto incremento da renda das famílias (e o público é quase didaticamente apresentado a panelas e mamadeiras cheias), o Estado brasileiro faz parte do seu cotidiano em outras duas situações: através das escolas e das assistentes sociais ligadas ao programa, que interrogam as famílias de maneira mais ou menos burocrática, com a finalidade de controlar os critérios para a continudade do benefício.
O filme, que segue uma montagem clássica ao intercalar as histórias das três famílias assegurando um bom ritmo à montagem, guarda sua grande qualidade ao se esforçar para se manter num campo neutro ao tratar de um tema tão polarizante no país: o registro é feito sem um narrador ou entrevistador, com a câmera simplesmente inserida na casa, o que divertidamente acaba por estimular aqui e ali um certo comportamento big brother de um ou outro retratado.
E é exatamente esta neutralidade que permite que o filme, ao entrar na casa das pessoas, migre da sua ideia inicial para, em primeiro lugar, constatar o papel decisivo das mulheres no desenho e manutenção das estruturas familiares mostradas no filme (e desde a primeira cena do filme este protagonismo é evidente); e, em segundo lugar, para nos lançar mais uma vez a questão que somente o mais convicto dos materialistas pode renegar, sobre a natureza do que nos é apresentado como problema: estão nas condições materais o cerne dos problemas apenas tangenciados por um programa como o bolsa família ou são todos os defeitos das formas e maneiras como os arranjos familiares são construídos e mantidos que levam as pessoas a viverem em tais condições? A última frase do filme levanta exatamente esta questão.
A mesma intenção de neutralidade, entretanto, com que se entrou na casa talvez não tenha permitido lançar um olhar, ainda que apenas furtivo, sobre o vizinho. O filme, ao atomizar as famílias, não toca na linha de renda estabelecida pelo programa, e assim fica no ar a inquietação por saber o que acontece em termos de dinâmica social para quem está imediatamente do lado de fora desta linha. Aqui Deste Lugar, um filme que merece ser visto por muita gente, deixa então o convite para o lugar da casa ser envolvido pelo lugar da rua e do bairro.

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