quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Tudo que aprendemos juntos, na abertura do XI Panorama Coisa de Cinema


A abertura do XI Panorama Coisa de Cinema, ontem à noite no Espaço Itaú - Cine Glauber Rocha, foi um sucesso de público, com salas lotadas por uma platéia ávida pela programação muito interessante que ocupará as salas de cinema na Praça Castro Alves, na sala Walter da Silveira e em Cachoeira até o próximo dia 4 de novembro. O Festival é sem dúvida um dos pontos altos da programação cultural na Bahia e a seleção de filmes apresenta títulos já bastante aguardados em um painel diversificado que serve de principal mostra da produção de cinema local. Ontem na abertura, além de uma apresentação de música antes da exibição do filme Tudo que Aprendemos Juntos, o clima de confraternização se estendeu após a exibição do filme em uma festa no próprio espaço do cinema.
Tudo que Aprendemos Juntos é o mais novo filme do diretor baiano Sérgio Machado e conta com Lázaro Ramos no papel principal encarnando um músico erudito que, no intervalo de tempo de pouco mais de um ano, entre duas audições para concorrer a uma vaga na OSESP, precisa aceitar, para poder pagar as contas, o trabalho de professor de música de adolescentes que vivem em uma favela e ensaiam sem nenhuma orientação valiosa na quadra de esportes do colégio.
O filme tem produção muito boa, a edição é de destaque, assim como a atuação do grupo de atores que fazem os papeis dos adolescentes e de Sandra Corleoni, principal coadjuvante no elenco, em contraposição a Lázaro Ramos, que apenas mantém o padrão de performance já conhecido. Se fosse possível escolher um adjetivo apenas para o filme, seria redondo: não somente há um determinado nível de profissionalismo em todos os aspectos técnicos do filme, como também a narrativa prefere se acomodar à opinião pública mais ou menos vigente na classe média universitária sobre o ambiente social em que a história é contada: nós somos convidados a descobrir humanidade no chefe do tráfico que domina a favela e a única representação completamente má é conferida à polícia.
Talvez seja este o problema do filme: diferente da tradição da ópera, onde as encenações das histórias por demais conhecidas do público desafiam seus conteúdos ao deslocá-los para ambiências contemporâneas ou muito distintas das originais, em Tudo Que Aprendemos Juntos ao clássico enredo professor-enfrenta-turma-problemática é acrescentada inquietação apenas de maneira muito tímida, escapando mesmo pela tangente.
E isso que o filme tinha a chance para explorar de maneira incômoda a ambígua e questionável relação entre as classes médias com culpa social e os moradores pobres de bairros desprovidos de infra-estrutura no país. Mas o filme prefere arredondar as arestas, amenizando os dilemas que esta reflexão poderia trazer ao seu personagem principal, apresentando o desfecho como uma win-win situação. Tudo indica que o filme fará uma boa bilheteria no Brasil.

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