domingo, 1 de novembro de 2015

A Loucura Entre Nós, no XI Panorama Coisa de Cinema


A Loucura Entre Nós, filme apresentado ontem em mais de uma sala no XI Panorama Coisa de Cinema, é um documentário que mostra aspectos do tratamento dado a distúrbios mentais, acompanhando a vida de duas mulheres durante mais de um ano. As singularidades dos personagens estão garantidas pelas diferenças de idade, classe social, estrutura familiar e formação. As duas protagonistas e os personagens secundários nos ensinam que uma pessoa em tratamento hoje pode estar enquadrada em três situações distintas: internada no hospital, participando de terapias ocupacionais com uma grande carga horária semanal e levando uma vida cotidiana essencialmente fora destes dois espaços apoiada no uso regular de medicamentos.
O filme deixa claro que estas situações correspondem a espaços de vida distintos, com fronteiras muito claras, o que fica evidente na satisfação que gera a transferência da unidade de terapia ocupacional para um endereço distinto do hospital.
O espaço como elemento definidor destas estratificações da loucura aparece marcado desde o começo do filme dirigido por Fernanda Fontes Vareille; na cena inicial, a porta do Hospital Juliano Moreira, em Salvador, é aberta pelo funcionário e, embora seja uma porta de correr de vidro e madeira em uma fachada moderna, o arranque do filme sugere pela solenidade do enquadramento que esta é uma porta que não se abre tão facilmente. Efetivamente, a câmera irá permanecer a maior parte do tempo numa espécie de vestíbulo, a partir do qual os internos da instituição são filmados atrás de uma grade que só é aberta com muita precaução e muito raramente.
Se relacionado ao título do filme, a loucura entre nós, o resultado da câmera parada ali no vestíbulo e da sutil demonstração de oposição no decorrer do acompanhamento das duas personagens através da narrativa suave e alternada, ainda que ofereça uma obra de ritmo, não consegue enfrentar a loucura que vemos e escutamos ali naquele vestíbulo gradeado e que definitivamente não está entre nós. A melhor prova disso é que o travelling durante a tão aguardada visita ao interior do módulo 2 é o melhor momento cinematográfico do filme, quando finalmente a fronteira mais importante é rompida e o cinema se coloca no meio da loucura, articulando a inversão do seu mote. Suave e contido, o filme, mesmo apresentando personagens em transição entre distintas situações, ao evitar ultrapassar mais consistentemente as fronteiras, acaba por não explorar todo o potencial do que seria estar entre. Dito de outra maneira, se a loucura é o que está entre nós, aquilo que permanece rigidamente separado ainda pode ser assim chamado?

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